O diagnóstico de uma doença grave costuma chegar como um ruído ensurdecedor, capaz de paralisar planos e silenciar sonhos. Para a estudante de Medicina Veterinária, Ana Vitória Costa Conceição, de 21 anos, o impacto foi diferente. No dia 4 de junho de 2024, dentro de um carro após sair da faculdade, ela leu o resultado de um exame que confirmava o que seus estudos técnicos já sugeriam: um carcinoma papilífero, o tipo mais comum de câncer de tireoide.
Diferente do que o senso comum dita, o câncer não escolhe idade, classe social ou momento. Ele simplesmente acontece. No caso de Ana, a descoberta não veio por sintomas — já que esse tipo de tumor é silenciosamente assintomático — mas pela persistência no autocuidado. “Eu fazia exames de rotina de seis em seis meses. Foi em um ultrassom que apareceu”, relata a jovem.
Eu fazia exames de rotina de seis em seis meses. Foi em um ultrassom que apareceu
A fortaleza no olhar
Enquanto muitos esperariam o desespero, Ana escolheu a serenidade. Dona de uma força que impressiona até os mais próximos, ela inverteu os papéis tradicionais: tornou-se o porto seguro de seus pais e amigos. “Eu sempre fui uma pessoa muito forte. Eu já acalmava os meus amigos e os meus pais. Nunca tive medo e sempre pensei positivo. Às vezes é a negatividade na mente que piora o processo”, afirma.
Eu sempre fui uma pessoa muito forte. Eu já acalmava os meus amigos e os meus pais. Nunca tive medo e sempre pensei positivo. Às vezes é a negatividade na mente que piora o processo
Essa postura blindou sua saúde emocional. Para ela, a rotina de exames pré-operatórios e idas ao hospital tornaram-se etapas logísticas entre as aulas na faculdade e os treinos na academia. O medo foi substituído pelo alívio ao saber que, para o seu caso, a cirurgia seria o pilar central da cura, sem a necessidade imediata de quimioterapia ou radioterapia.
Marcas que ensinam


Embora a mente tenha se mantido inabalável, o corpo sentiu o peso da jornada. Com a retirada da tireoide, veio o desafio da reposição hormonal. O metabolismo que antes era regulado naturalmente, passou a depender de uma pílula diária. As oscilações de peso e a queda de cabelo foram os momentos de maior vulnerabilidade para a autoestima da jovem. “Fiquei muito triste pelo fato de ter tido essa queda no meu cabelo e não podia fazer absolutamente nada”, relembra.
Fiquei muito triste pelo fato de ter tido essa queda no meu cabelo e não podia fazer absolutamente nada
Hoje, ela lida com o calor excessivo e as restrições alimentares com a mesma naturalidade com que encara a cicatriz no pescoço. Para Ana, as marcas não são lembretes da dor, mas troféus de uma batalha vencida.
Desmistificando o estigma
Existe uma crença perigosa de que o câncer é uma doença exclusiva da terceira idade. A experiência de Vitória serve como um alerta para a sua geração. “Eu ainda tinha o pensamento de que essas coisas só poderiam acontecer com pessoas mais velhas. Só que, se pararmos para pensar como está o mundo hoje, não devemos dar o benefício da dúvida”, alerta a estudante.
Eu ainda tinha o pensamento de que essas coisas só poderiam acontecer com pessoas mais velhas. Só que, se pararmos para pensar como está o mundo hoje, não devemos dar o benefício da dúvida
Fonte: O Imparcial




