TMDQA! Entrevista: Ferrugem, “Sentimento” e o lugar do pagode na música brasileira
Redação
às
Ferrugem lançou no final do mês passado Sentimento, seu décimo álbum de estúdio e reafirma o lugar do pagode na música brasileira. O projeto chegou em 22 de janeiro, em um momento estratégico: com mais de 11 milhões de ouvintes mensais no Spotify e com a faixa “Havaianas”, parceria com o grupo Som de Faculdade, no Top 50 do Spotify Brasil.
Agora, a partir de março, o cantor irá rodar o Brasil com a turnê inédita “As Vozes”, ao lado de Péricles.
Em seu novo lançamento, o artista aposta em um audiovisual de estética setentista, fugindo dos padrões convencionais do pagode, e consolida sua posição entre os nomes mais relevantes do gênero na atualidade.
Os singles “Apagar (Fundo Raso)” e “Arrependidaço”, que anteciparam o álbum, já tiveram resposta positiva da audiência. Para o cantor, o trabalho reafirma que o gênero não precisa competir por espaço, porque já ocupa um lugar permanente na cultura brasileira. Em conversa com o TMDQA!, foi direto ao ponto ao falar sobre como o pagode é percebido pela indústria musical:
“Por muitas vezes, de maneira midiática foi diminuído, citado de uma maneira menor do que realmente é.”
Texto continua após vídeo
Mudança estética sem abrir mão da essência
A voz de Ferrugem nunca deixou dúvidas sobre as técnicas afiadas e os melismas impecáveis, característicos da música soul. Esse repertório vocal também orienta Sentimento, gravado no Teatro Municipal de Niterói, com um visual que dialoga com referências do gênero e do funk dos anos 70.
Que fique claro: continua sendo pagode. A pesquisa estética e musical bebeu diretamente de fontes como a icônica festa de black music paulistana Chic Show e o programa americano Soul Train. Não por acaso, elementos que Ferrugem destaca com entusiasmo quase nostálgico.
Eu queria ter vivido essa época e esse meu saudosismo, aquela saudade daquilo que a gente não viveu. Então eu queria muito me vestir dessa forma. Me comportar de uma maneira diferente no palco. Porque os caras tinham uma performance, por mais que mais contida, um pouco mais compenetrada, e ela era mais incisiva, sabe? Ia direto no coração das pessoas. Eu acho que a gente não pode deixar isso de lado. A música brasileira precisa cada vez mais disso. E tem grandes artistas que fazem esse tipo de apresentação, que precisam aparecer mais. Não sei se vai ajudar, mas eu espero que ajude a galera a entender também, principalmente no pagode, que a gente não precisa ter só uma forma de fazer.
Pagode para o mundo: entre Beth Carvalho e Silk Sonic
Nas redes sociais, alguns comentários chegaram a dizer que Ferrugem “fez escola com Bruno Mars” ao adotar uma estética inspirada nos anos 70, como o projeto Silk Sonic, ao lado de Anderson .Paak.
A comparação é pouco fundamentada, mas abre uma discussão interessante sobre o reconhecimento e a presença global do pagode. Mais do que uma questão estética, o debate passa pela circulação internacional do gênero. Historicamente, o pagode sempre dialogou com matrizes globais da música negra, ainda que sua projeção fora do Brasil tenha sido pontual.
Um exemplo emblemático aconteceu nos anos 80, quando Beth Carvalho se apresentou no lendário Festival de Montreux e usou o palco internacional para explicar ao público o que era o pagode. Em francês, a sambista disse:
“Pagode é uma reunião de sambistas, onde se faz música, onde se bebe cerveja, se canta e se dança. Onde se fala dos problemas cotidianos, porque a vida lá não é fácil. Hoje é a palavra da moda do Brasil. Não esqueçam: pagode!”.
Ferrugem parece retomar esse legado com consciência de quem entende seu papel. E deixou claro sobre a comparação:
“O Silk Sonic foi a última coisa que eu pensei pra de fato ter essa licença poética de falar dos anos 70 sem ter vivido os anos 70. O Bruno [Mars] também não viveu, ele é mais novo que eu. Se ele pode fazer isso e levar a própria música para o mundo, por que a gente também não pode fazer o mesmo e tentar apresentar, além desse mood que todo mundo já conhece, um pagode que talvez boa parte do mundo ainda não conheça? Acho que a gente tem capacidade de fazer isso acontecer.”
Se há algo que Ferrugem reivindica com veemência é o direito de não se encaixar em um estereótipo, e de expandir as fronteiras do pagode sem medo. “O pagodeiro não precisa ter cara. O músico não precisa ter cara”, diz, reagindo a comentários sobre sua aparência, que já foi comparada ao Chorão do Charlie Brown Jr. Longe de ser um problema, é parte constitutiva de sua identidade artística e de sua visão sobre aonde o gênero pode chegar.
Desde Climatizar, em 2014, meu foco sempre foi apresentar boa música, independentemente do estilo. O pagode me escolheu, fui arrebatado por esse ritmo ainda muito jovem, e é a bandeira que eu carrego. Luto para mostrar que o pagode foi muitas vezes diminuído de forma midiática, quando, na verdade, junto do samba e do forró, é um dos estilos que melhor sabe contar a história do nosso país e chegar à casa das pessoas, especialmente das minorias.”
Fogo brando
Foram dois anos lapidando o álbum ao lado do produtor Lincoln de Lima e do diretor musical Valério Brair, tecladista veterano. O processo de criação foi intenso e chegou a ser interrompido. O resultado é um disco que ele próprio define como “de fogo brando”: romântico sem ser meloso, intimista sem perder a identidade rítmica do pagode.
Foi um processo bem cansativo, não vou mentir, porque a gente tava batendo tanto na mesma tecla, e chegou um ponto que a gente parecia que, por mais que a gente quisesse melhorar o disco, a gente não conseguia mais, não tinha mais por onde ir. A gente preferiu dar uma pausa, ficamos um bom tempo, alguns meses, sem mexer nesse disco. Por isso, levou mais de dois anos pra gente terminar. Regravamos muitas coisas por várias vezes, só nesse computador tem umas 4 ou 5 sessões do mesmo disco.”
A opção por uma abordagem mais orgânica se reflete diretamente na instrumentação do álbum: os sintetizadores foram minimizados, a execução da banda acontece de forma mais contida, e a voz de Ferrugem assume protagonismo absoluto, reforçando sua identidade artística no pagode contemporâneo.
“Tudo que você vê no clipe foi o que rolou no estúdio. Poucos instrumentos. Pra que soasse, de fato, a minha voz e que fosse ela o canal de ligação até a quem tá ouvindo a gente”, explica.
O pagode não precisa estar na briga
Na playlist das Top 50 músicas mais ouvidas no Brasil, o funk e o sertanejo dominam. Nesse contexto, o pagode aparece em uma boa colocação, mas em doses menores. Quando questionado sobre o atual momento do gênero nos streamings, Ferrugem é categórico: prefere ficar de fora dessa disputa midiática.
“Me tira fora dessa briga, eu não quero estar nisso. Eu quero estar junto com os caras”, afirma, referindo-se aos artistas sertanejos.
Para ele, o pagode já provou sua perenidade. Está presente nos churrascos de domingo, nas playlists até de quem escuta rock pesado e também nas referências de artistas de outros gêneros, como Marcelo D2, citado por Ferrugem como presença constante em sua escuta. Aliás, o rapper lançou em 2025 o álbum Manual Prático do Novo Samba Tradicional, que o cantor aponta como trilha sonora habitual em sua casa.
Essa visão revela maturidade artística e comercial. Com 12 anos de carreira, dez discos lançados e participação em festivais como o Rock in Rio, onde levou o pagode pela primeira vez ao Palco Sunset, um dos principais do evento, no mesmo dia em que Mariah Carey se apresentou, em 2024, Ferrugem entende que a volatilidade das paradas não define longevidade.
O número um de hoje pode ser o número 50 de amanhã. A coisa tá tão volátil, acontece tudo de uma maneira tão de repente que não vale a pena a gente se prender nisso. A gente já furou essa bolha. Já passamos dessa fase, de querer estar performando. A informação que a gente tem que guardar no nosso coração e que faz a gente entender o nosso valor é que independente da fase que esteja vivendo, o samba é eterno e tá na casa de todo mundo, todo final de semana.”
A partir de março, Ferrugem embarca na turnê “As Vozes” ao lado de Péricles, figura que ele considera não apenas ídolo, mas amigo de longa data. O primeiro fruto dessa parceria é o single “Foguete”, já disponível em todas as plataformas.
O que começou como admiração de fã há 15 anos se transformou em uma relação familiar: “Família dele é minha família, os filhos dele são minha família”, conta. O projeto também será gravado. Em São Paulo, acontece no Espaço Unimed, e promete momentos marcantes do encontro de duas das maiores vozes do pagode.“Vai ser difícil a gente não se emocionar, não chorar, vai ser lindo demais”, antecipa.
A parceria com Péricles simboliza mais do que um encontro entre artistas de gerações diferentes. Por fim, Ferrugem cita Lucas Morato, filho de Péricles, como compositor de vários de seus sucessos, como “Até Que Enfim” e “Pra Não Doer”, evidenciando que a conexão entre eles ultrapassa o palco e se estende ao processo criativo.
Entre as 12 faixas do novo álbum, o próprio Ferrugem destaca “Arco e Flecha” como a que mais o emociona. A canção, do jovem compositor Enry Sanches, o remete ao início do relacionamento com a esposa Thaís Vasconcellos e, mesmo após nove anos juntos, ainda consegue reacender essa “paixão avassaladora”.
É esse é um dos Sentimentos que ele espera provocar em quem o ouvir:
“É um disco pra você ouvir dentro da sua casa, tomar um vinhozinho, sentar com a família, pra poder mostrar pros amigos. Não vou dizer nem que ele é um disco de pagodão, assim. É um disco de música romântica.”
OUÇA AGORA MESMO A PLAYLIST TMDQA! BRASIL
Música brasileira de primeira: MPB, Indie, Rock Nacional, Rap e mais: o melhor das bandas e artistas brasileiros na Playlist TMDQA! Brasil para você ouvir e conhecer agora mesmo. Siga o TMDQA! no Spotify!
Assessoria de comunicação da agência SLZ7. Uma empresa de desenvolvimento e marketing digital que oferece soluções estratégias e fortalecimento de marcas aumentando a presença online