Em meio às gélidas e apaixonantes montanhas que cercam a pequena cidade turística de Park City, o Festival de Sundance 2026 dá início à edição que promete ser uma das mais simbólicas e agridoces de sua história. Marcando sua despedida do local que a consagrou como um dos eventos mais queridos e cruciais da indústria cinematográfica, aquele que se tornou o epicentro do futuro de Hollywood está prestes a migrar do pico do estado de Utah para as belas paisagens rochosas de Colorado.
E se o Sundance Film Festival é o termômetro do que veremos nas telas pelo resto do ano, o primeiro fim de semana da edição de 2026 já logo aqueceu os ânimos dos cinéfilos, cineastas e artistas do mundo todo que cruzam as íngremes ruas dessa clássica cidade que pertenceu ao famoso Velho Oeste. Iniciado na última quinta-feira (22) sob o frio cortante de um inverno rigoroso, o festival aconchegou-se nas salas de cinema espalhadas em meio às montanhas, fazendo da experiência compartilhada o principal aquecedor do evento.
Sob a tradicional atmosfera de que há sempre um novo clássico prestes a nascer de dentro das salas escuras de exibição, o primeiro dia foi celebrado no popular Eccles Theatre, palco das principais estreias que chegam ao Sundance. A casa cheia recebeu artistas como Chris Pine e Jenny Slate, que apresentaram o drama Carousel. O ator, visivelmente tocado pela recepção, comentou sobre a delicadeza do roteiro de Rachel Lambert, descrevendo-o como um retrato íntimo da busca humana por conexão, tema que parece ter dado o tom inicial desta edição.
A noite de abertura ainda reservou momentos de pura catarse, como a estreia de Buddy, terror experimental que abriu as sessões da Meia-noite, estrelado por Cristin Milioti, Topher Grace e Keegan-Michael Key. O dia de reencontros entre artistas e audiência ainda contou com a apresentação do júri oficial, que este ano reúne talentos do calibre de Tatiana Maslany e Martin Starr, além de celebrar Andrew Stanton (Wall-e, Toy Story 5, Procurando Nemo) e Colby Day (The School of Canine Massage) com o prêmio Alfred P. Sloan pela ficção científica In The Blink of An Eye.
Já na sexta-feira (23), Park City foi tomada pela dona do verão “brat” que embalou os ouvidos do mundo, Charli XCX. Estreando em Sundance com o mocumentário The Moment, a irreverente artista tira sarro de sua própria ascensão ao estrelato POP com uma produção que celebra a arte de rir de si mesma. Acompanhada por Rachel Sennott e Alexander Skarsgård, a cantora provou que o festival continua sendo o lugar perfeito para experimentos que desafiam gêneros.




E diante da imensidão de histórias que desafiam os gêneros cinematográficos e que começam suas jornadas inspiradoras aqui, o reduto do cinema indie ainda celebrou a trajetória de sucesso do finado Robert Redford, aclamado ator e diretor fundador do Instituto responsável pelo festival. Um dos maiores nomes da indústria, ele foi a força motriz que impulsionou a produção de filmes independentes, dando voz a artistas novos e desconhecidos, ajudando a formar gerações inteiras de forças criativas.
Sundance também reuniu uma constelação de nomes de peso, com os indicados ao Oscar Ryan Coogler, Ethan Hawke e Ava DuVernay homenageando Chloé Zhao e o veterano Ed Harris. Já nas telas, Channing Tatum marcou seu retorno ao fest após duas décadas, protagonizando Josephine, de Beth de Araújo. Em meio a uma recepção calorosa, o longa foi elogiado por seu impacto emocional.




Chegando ao sábado, o terceiro dia do festival entregou o ápice da fofoca com uma dose inesperada de realeza. O Duque e a Duquesa de Sussex, Harry e Meghan, apareceram para a estreia do documentário Cookie Queens, em que atuam como produtores executivos. Enquanto isso, Olivia Wilde testa resgatar seu momentum e prestígio com The Invite. Após uma ascensão interrompida em virtude do controverso Não Se Preocupe, Querida – marcado por polêmicas nos bastidores e uma recepção insossa -, a atriz que se tornou cineasta tenta recuperar seu fôlego. E todo mundo sabe que Sundance é o palco ideal para uma boa história de redenção.
Outro ponto alto foi o retorno de Olivia Colman com Wicker. A atriz não segurou as lágrimas ao ser recebida com aplausos intermináveis, descrevendo a história como um conto de fadas para adultos. Amada pelos festivais e conhecida por se desafiar em papéis dos mais diversos, a premiada atriz britânica retorna para as montanhas após o sucesso emblemático de Meu Pai, que em 2020 levava o público às lágrimas com uma história familiar sobre demência. O longa, dirigido por Florian Zeller, teria a maior trajetória de sucesso daquela edição de Sundance, conquistando em 2021 os Oscar de Melhor Ator (para Anthony Hopkins) e Melhor Roteiro Adaptado (para Zeller).




E a diversidade de vozes continua sendo o coração do evento, especialmente durante a premiação das cineastas indígenas Masami Kawai, Isabella Madrigal e Tsanavi Spoonhunter, que receberam as bolsas Merata Mita e Graton. Formando um contraste com o glamour hollywoodiano de estrelas que buscam revisionismo em suas carreiras e que estão atrás de prestígio na indústria, para além da popularidade nas bilheterias, o Sundance Film Festival continua sendo o expoente do inusitado, inovador e audacioso. De Natalie Portman a Jenna Ortega, que estrelam The Gallerist, ao estreante Walter Thompson-Hernández (que transformou seu curta premiado de 2022 no longa If I Go Will They Miss Me), o evento ainda é o local que projeta o futuro do cinema.
Entre as gargalhadas provocadas por Taika Waititi e o silêncio respeitoso pedido pela cineasta Selina Miles em defesa das mulheres silenciadas pela violência, o festival provou que, em 2026, o cinema independente continua vivo e barulhento, mesmo diante da crise de identidade da indústria em meio às guerras políticas e à promoção de agendas controversas. E neste cenário em que Hollywood muitas vezes se perde em fórmulas engessadas e debates polarizados, Park City se reafirma como o refúgio da originalidade pura e Sundance segue sendo o lugar onde as conexões humanas e o desconhecido se encontram – provando que a verdadeira magia ainda acontece no momento em que as luzes se apagam.”
Fonte: CINEPOP




