Resenha: Harry Styles é a realeza do pop contemporâneo

Resenha: Harry Styles é a realeza do pop contemporâneo

Poucos artistas do primeiro escalão do mundial possuem a coragem de para apertar o botão de “pausa” no auge da carreira após Harry’s House (2022). Após uma extensa turnê e um Grammy de Álbum do Ano debaixo do braço, o ex-One Direction fez o que parecia impensável: sumiu. Foi viver em Roma, treinar maratonas e, principalmente, redescobrir o prazer de ser apenas um rosto na multidão das pistas de Berlim.

Esse hiato de quatro anos – , considerando o último show em 2023 – não foi apenas um , mas uma descompressão criativa que gerou seu trabalho mais audacioso. Kiss All The Time. Disco, Occasionally. (ou simplesmente KISSCO, para os íntimos), disco lançado nesta sexta-feira (06), marca o momento em que Harry para de emular o clássico dos anos 70 para se tornar o protagonista de sua própria vanguarda . É um projeto que respira liberdade, transpira o suor das boates europeias e, paradoxalmente, revela um artista mais humano do que nunca.

O TMDQA! ouviu o álbum e te conta tudo sobre essa nova era. Vamos lá?

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Do altar do pop para o da pista

Desde os primeiros segundos de “Aperture”, é certo que o Harry de suspensórios e alfaiataria retrô deu lugar a um explorador de texturas sintéticas. A faixa, que abre o disco como um despertar sensorial, utiliza sintetizadores gélidos e uma evolução lenta notoriamente inspirada no LCD Soundsystem – que é relembrado constantemente pelos quarenta e poucos minutos do projeto. “Aperture lets the light in” (A abertura deixa a luz entrar), canta ele, estabelecendo o mantra do álbum: a busca pela iluminação através da vulnerabilidade.

Aliás, o disco é uma jornada de contrastes. Se em “American Girls” ele ainda flerta com o pop rock que o consagrou, é em faixas como “Ready, Steady, Go!” que o salto sem volta acontece. Com um baixo metálico que colide com linhas de guitarras e cantos em italiano (“Pronti, quasi, vai!”) que acompanham o título da faixa, a música evoca surpresas deliciosas ao ouvinte, lembrando a energia visceral da vida noturna. Harry não quer apenas que você dance; ele quer que você sinta o desequilíbrio.

A dicotomia entre ser o “observador” e o “observado” permeia toda a obra. Em “Are You Listening Yet?”, ele utiliza o sprechgesang (canto falado) para questionar a própria sanidade e a superficialidade das conexões modernas. É o som de um popstar que cansou de ser uma vitrine e decidiu quebrar o vidro.

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Exploração sonora: entre o caos e o mantra

Se Harry’s House era um convite para entrar em casa, KISSCO é um convite para se perder na rua. A produção de Kid Harpoon atinge um novo patamar de complexidade, misturando o orgânico e o artificial com uma fluidez cativante.

O coração experimental do disco bate forte em “Season 2 Weight Loss”. Com batidas de drum and bass propositalmente dessincronizadas e um início que te faz pensar se você está ouvindo uma música do Kraftwerk, a faixa é um labirinto sonoro. É estranha, densa e termina com um sino de meditação que força o ouvinte a parar. Já “Dance No More” é o momento de catarse absoluta. Com um groove de baixo cativante, Styles acerta na urgência do funk-punk oitentista, celebrando a drag e termina com o grito icônico: “Respect your mother!” (Respeite sua mãe!).

Nem tudo, porém, é neon e batida eletrônica; Harry ainda sabe ser o mestre da melancolia. “Coming Up Roses” traz uma orquestra de 39 músicos regida por Jules Buckley, criando uma valsa cinematográfica sobre a insegurança no amor. É o equilíbrio necessário para um disco que se propõe a ser completo.

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O veredito: a luz no fim da noite

O encerramento com “Carla’s Song” é o ponto final perfeito. Uma onda de pianos ondulantes e sintetizadores que soam como o nascer do sol após uma noite inteira na pista. Aqui, Harry descobre que a luz que ele buscava em “Aperture” não está no outro, mas na sua própria capacidade de ver o mundo.

Kiss All The Time. Disco, Occasionally. pode até soar derivativo para os puristas do indie ou do techno de Berlim, mas para o universo pop, é um marco de emancipação. Harry Styles provou que não precisa de refrãos chicletes óbvios para manter sua relevância; ele precisa apenas de sua . É um álbum para ser sentido na pele, e de preferência, com o volume no máximo e as luzes apagadas.

★★★★½ (4.5/5)

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