O período da ditadura militar assolou toda a América Latina no século passado, e, até hoje, vivemos as consequências e os resquícios desses tempos. Enquanto aqui no Brasil fazemos filmes como ‘Ainda Estou Aqui‘ e ‘O Agente Secreto‘, também os países vizinhos vêm se debruçando sobre esse período buscando os fios soltos dessa ferida ainda aberta. Assim, chega aos cinemas essa semana, uma nova versão de ‘O Beijo da Mulher Aranha‘, clássico cult dirigido pelo saudoso Hector Babenco e que, à época, recebeu indicações ao Oscar.
Argentina, 1980. Enquanto o país vive uma verdadeira polarização com perseguições políticas e prisões aleatórias, há aqueles que buscam resistir e lutar. É nesse contexto que o jovem Valentín Aguerri (Diego Luna, de ‘Andor‘) é preso, acusado de ter contatos preciosos em um importante núcleo de resistência. Uma vez no cárcere, ele divide a cela com Luis Molina (Tonatiuh Elizarraraz), jovem sonhador fã da atriz Ingrid Luna (Jennifer Lopez). Para passar o tempo no confinamento e distrair a mente dos horrores da tortura, Molina começa a contar as histórias dos filmes de Ingrid Luna para Valentín – em especial, a história da misteriosa Mulher-Aranha. Aos poucos, realidade, sonho e ficção começam a se misturar na vida desses personagens, enquanto, ao mesmo tempo, o diretor da prisão pede para que Molina consiga informações valiosas sobre as operações de Valentín.
Diferentemente da versão de 1985 (então estrelada por William Hurt e Raúl Julia, levando ao estrelato internacional a Sônia Braga), a versão 2026 é um musical – o que torna tudo menos duro, mais lúdico, mais profético. E aí faz sentido a escalação de Jennifer Lopez para o papel da nossa icônica Sônia Braga: aqui, Lopez não precisa tanto atuar, e faz o que sabe fazer de melhor – cantar e dançar. Mesmo com excesso de luz e de retoques no rosto para parecer mais jovem e etérea, Lopez surge belíssima em todas as suas cenas, dominando e seduzindo no palco com toda a sua performance e gingado.




Como pano de fundo para o mundo do cinema, a direção de fotografia constrói uma atmosfera ludibriante, ora contrastante com cores fortes e pastéis, ora com a penumbra do thriller à medida que a narrativa avança ao derradeiro beijo da Mulher-Aranha. É exatamente na construção desse imaginário que o espectador é deslumbrado pelo grande valor de produção do longa, com cenários construídos, efeitos especiais e toda uma coreografia ensaiada para afastar a atmosfera de penumbra da realidade e imergir – espectador e ouvinte-personagem – na narrativa envolvente de um cinéfilo apaixonado.
Escrito por Bill Condon, Terrence McNally e Manuel Puig, o roteiro entrelaça as histórias tal qual uma aranha que tece, tece e enrola suas presas em sua teia, de modo que, quando percebemos, já estamos imobilizados nesta narrativa. Ainda assim, o roteiro também pende a desenvolver mais a parte imaginativa do que a realidade dos personagens, de modo que, quando enfim o derradeiro relacionamento acontece, parece que surge meio que do nada, desavisado.
Bonito, triste e bem emotivo, a nova versão de ‘O Beijo da Mulher Aranha‘ de Bill Condon não chega a ser um novo clássico, mas chega para reapresentar esta história às novas gerações, mostrando que é possível sonhar e encontrar o amor até mesmo quando não há mais esperanças no mundo.




Fonte: CINEPOP




