Nos últimos meses, um nome passou a dominar conversas em consultórios, academias e redes sociais: Mounjaro. O medicamento, cujo princípio ativo é a tirzepatida, ganhou popularidade principalmente por sua capacidade de promover perda de peso significativa, associada a melhora do controle metabólico. O que antes era um tema restrito à endocrinologia passou a despertar interesse do público geral, tornando-se uma verdadeira febre no Brasil.
A explicação para esse fenômeno começa pelos resultados. Estudos clínicos robustos, demonstraram reduções de peso superiores a 15% em muitos pacientes, algo inédito na farmacoterapia moderna da obesidade. Isso ocorre porque a tirzepatida atua de forma dupla, estimulando os receptores dos hormônios GLP-1 e GIP, que regulam saciedade, esvaziamento gástrico, secreção de insulina e metabolismo energético. Na prática, o paciente sente menos fome, maior controle alimentar e melhora de parâmetros metabólicos importantes.
Somado a isso, o Brasil enfrenta uma epidemia silenciosa de obesidade e sobrepeso, associada ao aumento de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e dores musculoesqueléticas. Muitas pessoas já tentaram dietas, exercícios e abordagens isoladas sem sucesso duradouro. Quando um medicamento surge com resultados visíveis e rápidos, a procura cresce de forma exponencial, impulsionada ainda pela influência das redes sociais e pela divulgação de “antes e depois” nem sempre contextualizados.
No entanto, é fundamental reforçar que o Mounjaro não é indicado para todo mundo. Trata-se de um medicamento potente, inicialmente desenvolvido para o tratamento do diabetes tipo 2, e que passou a ser utilizado também no manejo da obesidade em contextos específicos. Pessoas sem indicação clínica clara, sem avaliação metabólica adequada ou que buscam apenas uma solução estética rápida podem se expor a riscos desnecessários.
Entre os principais cuidados estão os efeitos colaterais gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação, especialmente nas fases iniciais ou com escalonamento inadequado de dose. Além disso, o uso indiscriminado pode levar à perda excessiva de massa muscular, deficiência nutricional, queda de desempenho físico e impacto negativo na saúde óssea, aspectos frequentemente negligenciados fora do ambiente médico.
Outro ponto crítico é a falsa sensação de que o medicamento substitui hábitos de vida. Nenhuma medicação age de forma isolada. Sem ajuste alimentar, estímulo ao exercício físico e acompanhamento contínuo, os resultados tendem a ser temporários, com alto risco de reganho de peso após a suspensão.
Por isso, o acompanhamento médico é indispensável. Cabe ao profissional avaliar indicação, contraindicações, histórico clínico, composição corporal, exames laboratoriais e objetivos reais do paciente. Mais do que emagrecer, o foco deve ser saúde, funcionalidade, prevenção de doenças e qualidade de vida a longo prazo.
O Mounjaro representa um avanço importante da medicina metabólica, mas não é milagre. Quando bem indicado e acompanhado, pode ser uma ferramenta valiosa. Quando usado sem critério, transforma-se apenas em mais uma promessa perigosa. Saúde não se resolve com atalhos, e sim com ciência, responsabilidade e cuidado contínuo.
Fonte: Jornal Pequeno




