O varejo de livros no Brasil encerrou o ano de 2025 com indicadores financeiros positivos, mas que mascaram uma crise estrutural no hábito de leitura do país. Dados do Painel de Varejo de Livros, realizado pela NielsenIQ BookData para o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), mostram que o setor faturou R$ 3,099 bilhões, um crescimento de 8,7% em relação ao ano anterior.
O volume de exemplares comercializados também subiu, atingindo a marca de 60,3 milhões de unidades. Entretanto, esse avanço financeiro contrasta com a retração da base de consumidores: a proporção de leitores na população brasileira caiu de 56% em 2015 para 46% em 2024.
Para manter o faturamento em alta diante de um público cada vez mais restrito, o mercado recorreu a uma política agressiva de preços. O desconto médio aplicado aos livros saltou para 23,9% em 2025. Segundo Dante Cid, presidente do Snel, o setor poderia ter movimentado até R$ 4 bilhões caso os produtos fossem vendidos pelo preço de capa.
A análise sugere que a demanda atual é artificialmente estimulada por promoções, tornando o setor altamente vulnerável a oscilações econômicas. Como o livro ainda é percebido como um item não essencial, qualquer instabilidade na inflação — que fechou 2025 em 4,26% — costuma resultar em cortes imediatos no orçamento das famílias voltado à literatura.
Outro ponto de atenção para especialistas é a redução da bibliodiversidade. O mercado tem se concentrado em “ondas” de consumo de alto giro, como os livros de colorir, em detrimento de uma oferta mais variada de títulos. Em 2025, o número de novos títulos (ISBNs) comercializados sofreu uma queda drástica de 17,7%.
O receio de representantes do setor é que eventos sazonais em 2026, como a Copa do Mundo, acentuem essa tendência de privilegiar produtos comerciais de rápida circulação que não contribuem necessariamente para a formação de novos leitores ou para o fortalecimento do ecossistema literário.
A reversão desse cenário de queda no número de leitores, segundo pesquisas como a “Retratos da Leitura no Brasil”, depende menos de promoções no varejo e mais de influência cultural e políticas públicas.
O papel da escola e dos professores segue como o principal motor de interesse pela leitura entre jovens, sendo responsável por mais de 60% do incentivo nas faixas escolares.
Para lideranças do setor, como Alexandre Martins Fontes, da Associação Nacional de Livrarias (ANL), a solução para a crise de leitores passa pelo fortalecimento de livrarias físicas e pontos de descoberta, que garantem a sobrevivência da diversidade editorial fora dos algoritmos das grandes plataformas online.
Fonte: O Imparcial




