“Pouco vale a vida sem a liberdade”. A máxima, escrita no Maranhão do século XIX, ressoa hoje não como um eco distante, mas como um manifesto vibrante. Maria Firmina dos Reis (São Luís, 11 de março de 1822/Guimarães, 11 de novembro de 1917) não foi apenas a primeira romancista brasileira; ela foi uma arquiteta da subjetividade humana em um período que negava humanidade a pessoas negras. Em 2026, sua figura transcende o resgate histórico: ela se posiciona como uma intelectual estratégica que utilizou a literatura e a educação para implodir as lógicas de seu tempo.
O protagonismo além da “invisibilidade”
Falar de Maria Firmina apenas sob a ótica do silenciamento é ignorar a sofisticação de sua resistência. Firmina foi uma mulher de táticas. Em seu romance fundamental, Úrsula (1859), ela operou uma espécie de “cavalo de Troia” literário.
A jornalista e escritora maranhense Andréa Oliveira, autora de obras que biografam ícones da cultura local como João do Vale, destaca que Firmina utilizou uma estrutura clássica para pautar o que era urgente. “Em um primeiro plano, personagens brancos são protagonistas, mas, em camadas mais profundas, surgem negros que, pela primeira vez, tiveram voz”, explica Andréa. Para a biógrafa, a personagem Mãe Susana não é apenas um coadjuvante; ela é o canal por onde a própria autora escoa sua denúncia contra o horror do tráfico negreiro.
Essa profundidade é corroborada por Dilercy Adler, psicóloga, doutora em Ciências Pedagógicas e ex-presidente da Academia Ludovicense de Letras (ALL). Dilercy, que ocupa a Cadeira nº 8 da ALL, cujo patronato é da própria Firmina, ressalta que a autora foi pioneira ao tratar negros e brancos com “teor de igualdade” em uma sociedade escravocrata. “Firmina revela seu traço de coragem ao demonstrar a igualdade entre os seres humanos 29 anos antes da Lei Áurea”, pontua a acadêmica.


A identidade resgatada
Um dos aspectos mais importantes da obra de Firmina é a humanização do passado africano. Enquanto a elite branca da época via o escravizado como um “ser sem história”, Firmina descrevia o “segundo nascimento” — o parto sangrento e traumático ocorrido nos porões dos navios negreiros. “Ela resgata o reconhecimento de uma cultura e de um passado histórico para além da tristeza produzida pela escravidão”, afirma Dilercy.
Ao dar aos seus personagens um “padrão mental próprio”, Firmina antecipou debates sobre identidade e consciência de si que só ganhariam corpo na filosofia e na sociologia décadas mais tarde.
Educação como ferramenta de emancipação
A grandeza de Maria Firmina também se manifestou fora das páginas. Como educadora, ela desafiou a geografia da exclusão ao fundar a primeira escola mista do Maranhão, na zona rural de Guimarães.
Para Andréa Oliveira, essa faceta revela uma “ativista da educação” cuja atuação seria revolucionária até nos dias atuais. “Ela juntou filhos de senhores e de escravizados sob o mesmo teto. Abolicionista em tudo o que realizou, ela foi feminista antes mesmo de esse termo existir”, analisa a jornalista.
Essa “missão de amor”, como define Dilercy Adler, é o que torna Firmina uma figura atemporal. A educação, para a autora maranhense, não era apenas instrução, mas uma ferramenta prática de igualdade social e gênero.
A “Rosa-de-Jericó”: um legado que floresce no presente
Por que Maria Firmina é tão lida e discutida hoje? O movimento atual não parece ser um modismo editorial passageiro, mas uma convergência de lutas sociais. Andréa Oliveira observa que o interesse pela autora está ligado à intensificação dos movimentos antirracistas e feministas: “Enquanto a nossa sociedade não garantir direitos com equidade, precisaremos do exemplo dela”.
Dilercy Adler utiliza uma metáfora poderosa para descrever a persistência da autora: a Rosa-de-Jericó. Trata-se de uma planta que pode passar longos períodos seca, mas volta a florescer assim que encontra água. “A obra de Maria Firmina volta a florescer sempre que encontra novos leitores e pesquisadores dispostos a reconhecer seu valor”, afirma.
Hoje, Maria Firmina dos Reis não habita apenas os livros didáticos ou os bustos de bronze em São Luís. Ela vive na autoestima de meninas, mulheres e todos que descobrem que a intelectualidade brasileira tem rosto, nome e sotaque maranhense. O jornalismo, que outrora a ignorou por não se encaixar no perfil da elite, hoje se torna uma das ferramenta que garantem a eternidade de seu nome.
Fonte: O Imparcial




