Não é preciso ter estudado em alguma instituição pública no Brasil para saber como são as condições nestas instituições – basta, minimamente, assistir aos noticiários. Falta estrutura, faltam condições, falta investimento, falta tanta coisa! Mas também nestes locais é possível encontrar jovens estudantes sedentos em conhecer o mundo, em se fazer ouvidos, em promover a melhoria social a partir das suas ideias e sentimentos. Porém, seja pela terna idade, seja pelas suas origens, a maior parte desses jovens não ganha espaço na sociedade para se desenvolverem em outras vertentes diferente de uma ideia fixa do local onde eles podem ocupar. Atenta a isso, a diretora Lúcia Murat teceu seu mais novo filme, ‘Hora do Recreio‘, que chega ao circuito brasileiro a partir do próximo dia 12.
De uma maneira informal, a diretora visita quatro escolas de pontos diferentes do Rio de Janeiro com um intuito em comum: construir um ambiente de fala e de escuta que fosse leve como a hora do recreio – ou seja, aquele intervalo entre os assuntos sérios das aulas, durante o qual os alunos podem se divertir, se descontrair, brincar, serem mais eles sem receio de julgamentos. É nesse intervalo, de poucos minutos diários, que a diretora consegue o registro de depoimentos valiosíssimos sobre como pensam, como sentem, como desejam uma juventude contemporânea frequentadora dos espaços públicos.
Para isso, uma professora, no papel de mediadora, inicia a conversa sobre temas bastante espinhosos – começando pela violência de gênero e perpassando por tantos outros puxados pelos próprios alunos, a partir de seus depoimentos, como as violências contra pessoas LGBT+, a falta de perspectiva, o racismo, etc. Com os alunos na faixa entre 14 e 17 anos e sendo a maioria deles autodeclarados como pessoas pretas, é possível ver e ouvir como as histórias desses alunos e de suas famílias possuem diversos pontos em comum, mesmo sendo de escolas diferentes e de regiões distintas do Rio.


Em pouco mais de uma hora de duração, a diretora e roteirista Lúcia Murat (que trabalha muito bem ambos os formatos, do documentário e da ficção) não se furta em deixar registrado em sua obra os desafios (para não dizer “tragédias” cotidianas) que seu projeto acaba enfrentando para tentar acontecer: em uma das escolas, por exemplo, apesar de conseguir a autorização e agendar a visita, a filmagem é impedida por motivos de tiroteio nas redondezas, que acaba perdurando. Para quem mora no Rio de Janeiro, em qualquer área, esta é uma realidade comum e possível; mas, ver registrado assim, num filme, para que pessoas do mundo inteiro vejam e (talvez) percebam o quanto a violência incide no futuro desses jovens, meio que dói.
Exibido no Festival de Berlim de 2025 e no Festival É Tudo Verdade, o documentário mistura os depoimentos reais dos estudantes com uma encenação artística de trechos da literatura brasileira, apresentados por jovens caracterizados cujas falas vão interligando ficção, realidade, literatura, documentário, teatro, cinema. Dessas encenações, o espectador é convidado a pensar caminhos alternativos às múltiplas violências narradas no início do longa: através da arte, é possível encontrar a cura, a saída, a alternativa do mundo cruel ao qual boa parte da realidade na qual estes jovens estão inseridos cisma em deixá-los. A arte, felizmente, é um caminho.


Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
Fonte: CINEPOP




