Em entrevista, Dani Mã revela como arquitetou o caos em seu novo álbum

Em entrevista, Dani Mã revela como arquitetou o caos em seu novo álbum

Nômade por formação e inquieto por vocação, Dani Mã chega ao seu quinto álbum, Arquitetando o Caos, como quem organiza os ruídos do mundo em forma de canção.

Entre o interior da Bahia e cidades das Américas, o artista construiu uma trajetória marcada pelo trânsito – geográfico, afetivo e estético – que se reflete diretamente no disco. Produzido por Rovilson Pascoal e o próprio artista, o combina ritmos afro, experimentações eletrônicas e uma escrita que encara os conflitos contemporâneos de frente, apostando no afeto, na dança e na escuta como tecnologias possíveis para atravessar tempos desumanizados.

Em papo com o TMDQA!, Dani Mã aprofunda os conceitos que atravessam o álbum, comenta as parcerias com Armandinho Macedo, Gabriel Moura (Farofa Carioca), Arapê Malik, Janamô, Filipe Lorenzo, Neila Kadhí e Camila Costa e reflete sobre pop, política, cultura independente e resistência.

TMDQA! entrevista: Dani Mã

TMDQA!: O título do seu disco remete de cara ao livro A Arquitetura do Caos, de Lúcio Massafferri Salles, e traz temáticas parecidas – a engenharia social e o uso do mundo virtual como campo de disputa. Você acredita que as “tecnologias sociais de afeto”, que você prega são capazes de combater o caos arquitetado pelos donos do poder, ou, ainda, que o caos criativo pode derrotar o caos social? Nesse sentido, a cultura independente seria uma espécie de guerrilha? 

Dani Mã: Essa terminologia vem sendo tangenciada há quase um século! Primeiro com Banalidade do Mal de Hannah Arendt, depois com o documentário Arquitetura da Destruição do cineasta sueco Peter Cohen, e agora também com intelectuais brasileiros dando contribuições atualizadas e precisas ao debate. A partir de 2019 várias de minhas composições vem refletindo essa realidade. Pra destrinchar a temática, em meio a pandemia anfitriei lives intituladas “Arquitetando o Caos” que acabou emprestando o título ao álbum que tá sendo lançado agora. 

Conversas com convidados que sintetizam brilhantemente essas disputas como Jean Wyllys, João Cezar de Castro Rocha, entre outros, foram formatando o que veio a se tornar a narrativa do álbum. anos depois, quando vi o título do livro de Lúcio (praticamente homônimo) tive a sensação de realizar meu propósito de traduzir a experiência humana em canção. Ali ele aponta que o caos que se vive não é natural, é projetado. 

As tecnologias de manipulação e desmobilização de reação são tão sofisticadas que demandam uma resposta igualmente complexa. Acredito que as “tecnologias sociais de afeto” – que são essas formas de conexão, cuidado, escuta e criação coletiva que podem ser praticadas – são sim uma forma de driblar. Elas reprogramam o campo social a partir de lógicas diferentes: ao invés do medo, a confiança; ao invés do individualismo, a rede. O “caos” criativo não “derrota” o caos social de forma binária, mas o infiltra, contamina e abre brechas. Nesse sentido, é absolutamente uma espécie de guerrilha: tática, ágil, feita nos interstícios, ocupando e criando espaços para plantar outras possibilidades de vida.

TMDQA!: A linguagem pop (cultura de massa) é capaz de se comunicar com o público visando emancipação? Há contradição nisso?

Dani: A linguagem pop é um território em disputa. Ela foi criada como , mas é absorvida e ressignificada. Usar essa linguagem é falar no código que as pessoas já decodificam, é entrar na corrente principal para pescar ouvidos. A emancipação não pode ser um discurso enclausurado. Ela precisa ser contagiante, precisa do gancho, do refrão que gruda, da batida que convoca o corpo. Agora, como falar de algo complexo de forma acessível sem simplificar? A resposta está nas camadas sonoras do álbum: a superfície do suingue baiano convida, a profundidade poética fideliza e liberta. Se uma estrela da indústria como Lady Gaga (que coincidentemente está em turnê com o Mayhem que se traduz como CAOS), traz subversão à públicos, tá para a gente também! 

TMDQA!: A ideia de misturar elementos eletrônicos à música tradicional dialoga com esse movimento?

Dani: A mistura do com o tradicional é a metáfora sonora. O eletrônico representa o futuro, a , a virtualidade, a máquina. A matriz (o pagodão, o afrobeat, a guitarra baiana, o repente) representa a raiz, a memória, o corpo ancestral. Juntar os dois é dizer que o futuro não apaga o passado, ele o recodifica. É criar uma linguagem híbrida, tão diversa quanto a nossa existência hoje: entre o IRL (In Real Life) e o URL.

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TMDQA!: Como você conseguiu dosar um discurso direto com uma coisa mais poética e polissemiótica?

Dani: O discurso direto vem da urgência, da denúncia, do grito. A poesia e a polissemia vêm da necessidade de não esgotar o sentido, de convidar o ouvinte a escavar. A dosagem acontece ao lapidar as letras, deixando algumas frases como bordões claros (como “tudo que revolta me interessa”) sem deixar de trazer imagens mais abertas, que remetem ao surrealismo e à alegoria (como “luz que traz fogo na boca”). A música permite isso: você pode ter uma base rítmica contundente e uma letra que estimula um sentir. Um completa o outro.

TMDQA!: É possível dançar em meio ao caos? Luta e alegria podem conviver no mesmo espaço, ou na mesma música?

Dani: Essa é a pergunta central do álbum. E a resposta é: não só é possível, como é necessário. A dança é a corporificação da resistência. É a alegria como ato político, como afirmação de vida em meio à desgraça arquitetada. A luta sem alegria vira puro fardo, e a alegria sem consciência vira alienação. Mas quando você junta o tambor e o protesto, o groove e a palavra de ordem, você cria um ritual de potência. Olha o histórico: foi assim com o samba, com o funk, com o hip-hop. A pista de dança é um território livre, mesmo que por três minutos. E é nesse espaço que a gente se rearma.

TMDQA!: Como foi trabalhar com o experiente Rovilson Pascoal? Qual foi a colaboração dele para o álbum?

Dani: Trabalhar com o Rovilson foi como ter um arquiteto de som. Um mestre. Ele tem a experiência e a ousadia na medida exata. Ele não só capturou a energia crua das ideias, como deu cor e textura a elas. Foi ele quem ajudou a encontrar o equilíbrio entre o experimental e o orgânico, sugerindo arranjos, paisagens sonoras, cortes. Foi muito além de um produtor: foi um copiloto, um parceiro na construção desse mundo sonoro. A maturidade dele trouxe um chão para que a gente pudesse ousar sem medo de cair.

TMDQA!: Como rolaram as parcerias, inclusive de Armandinho  Macedo, Gabriel Moura (Farofa Carioca)? Como foi trabalhar com cada um deles?

Dani: Cada um trouxe uma assinatura energética única. Armandinho Macedo é a ponte viva com a Tropicália e com a guitarra baiana, trouxe um brilho solar, uma levada que conecta tudo com a revolucionária da MPB. Arapê Malik veio com a fúria e a precisão de quem é intimo do , com um flow que é tanto poesia quanto discurso, elevando o tom de urgência das faixas. Gabriel Moura é um mestre da composição (de todos os grandes hits de , entre outros) mas também é um cantor sensível que trouxe camadas vocais geniais a canção “Mar Aberto Aqui”, que fecha o álbum. Janamô e Neila Kadhí são multiartistas potentes e parceiras musicais constantes na troca que traz batidas que fazem o corpo se mexer inevitavelmente, com permissividade e letras afiadas que são chamado para a festa e para a luta ao mesmo tempo. Um time maravilha, cada um com sua especialidade no afetar corações.

TMDQA!: Qual você espera que seja o impacto desse disco no público?

Dani: O disco pode ser ferramenta e abrigo. Ferramenta para quem já está na luta, para sentir que a cultura é um campo de batalha válido e potente. E abrigo para quem está se aproximando dessas ideias pela primeira vez, para que se sintam acolhidos pela música e possam, aos poucos, decifrar as camadas. Mais do que impacto, espero ressonância. Que as pessoas ouçam e pensem: “é, tem um nome para isso que a gente tá vivendo. E tem um som também”.

TMDQA!: Agora um espaço livre. Gostaria de mandar alguma mensagem para os nossos leitores?

Dani: Para os leitores: não subestimem o poder do seu fone de ouvido. O que você escuta é um projeto de mundo. Escolha os mundos que te fortalecem, que te fazem sentir parte de algo maior e que te dão vontade de dançar mesmo quando tudo parece desabar. A cultura não é , é combustível. E o caos pode ser a matéria-prima para a gente construir, juntos, uma alegria rebelde e inquebrável. Procurem suas tribunas, seus coletivos, seus beats. E vamos arquitetar. Muito obrigado a todos que estão nessa trincheira sonora com a gente.

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