Bruna*, 37, e Raíssa*, 35, estão juntas há 19 anos, mas foi somente em 2022 que decidiram dar início à jornada pela maternidade. Ainda sem entender muito sobre fertilização in vitro (FIV), o casal começou a pesquisar valores, clínicas e possibilidades, inspirado por histórias de outros casais homoafetivos que haviam conseguido engravidar.
Nesse período, enfrentaram cancelamentos de consultas, remarcações e alto custo para seguir com o tratamento. Também havia muitas dúvidas sobre como todo o processo de FIV funcionava. Foi quando elas conheceram a ovodoação, ou doação de óvulos, procedimento que viabilizou o sonho de ter um filho.
O que é doação de óvulos?
A doação de óvulos é um processo pelo qual uma mulher doa seus gametas (óvulos) para outra mulher que esteja em situação de insuficiência ovariana e não consiga obter óvulos próprios. Os gametas são utilizados para engravidar durante o ciclo de reprodução assistida (RA).
No Brasil, a doação de óvulos é considerada um ato de caráter voluntário e altruísta, conforme a Resolução CFM nº 2.320/2022, e não deve ser feita com fins lucrativos. Ou seja, a mulher não pode vender seus óvulos ou ser remunerada por isso.
Por outro lado, se a doadora deseja congelar parte dos seus óvulos ou necessita realizar uma FIV, pode fazer uma doação compartilhada. Nesse caso, a receptora dos óvulos arcará com parte ou todo o custo do tratamento e, por outro lado, receberá os óvulos doados. Já a doadora, além de realizar o ato da doação, também poderá fertilizar seus próprios óvulos. Foi o que aconteceu com Bruna e Raíssa.
“O ato de ser doadora de óvulos ganhou um significado e um propósito muito mais profundo ao longo de toda a trajetória”, explica Bruna. Ao serem escolhidas para o pareamento, começaram a realizar o ciclo de estimulação ovariana. “Foi necessário ajustar algumas dosagens ao longo do processo, e tudo correu bem: conseguimos a quantidade de óvulos suficiente para atender à receptora e ainda formar os nossos próprios embriões”, relata.
Em seguida, foi realizada a FIV com parte dos óvulos que foram congelados para a reprodução assistida do casal. Em fevereiro de 2024, a primeira transferência embrionária foi feita e, alguns dias depois, o resultado positivo do teste de gravidez indicou que o procedimento foi bem-sucedido.
“Nosso bebê nasceu perfeito e hoje está aqui enquanto contamos nossa história”, relata. “Somos imensamente gratas à equipe médica, que foi essencial em cada etapa, e também ao doador [do gameta masculino], que possibilitou a nossa gestação”, completa.
Quem pode se beneficiar da doação de óvulos?
Segundo Vinicius Bassega, ginecologista e obstetra especializado em reprodução assistida, a recepção dos óvulos doados é indicada para mulheres ou casais que enfrentam desafios reprodutivos como:
- Falência ovariana prematura: cujos ovários param de funcionar antes dos 40 anos;
- Baixa reserva ovariana ou má qualidade oocitária: mulheres com idade avançada que apresentam diminuição acentuada da quantidade e/ou qualidade de seus óvulos;
- Doenças genéticas transmissíveis: casais ou mulheres com alto risco de transmitir doenças genéticas graves aos seus descendentes;
- Falhas repetidas de FIV: mulheres que já se submeteram a múltiplos ciclos de FIV com óvulos próprios, sem sucesso, e cuja causa da falha pode estar relacionada à qualidade oocitária;
- Ausência dos ovários: em casos de agenesia ovariana (ausência congênita de ovários) ou ooforectomia bilateral (remoção cirúrgica dos ovários);
- Mulheres solteiras ou casais homoafetivos: que desejam ter filhos e necessitam de gametas femininos para a concepção.
Quais são os critérios para ser doadora de óvulos?
Os critérios para uma mulher ser doadora de óvulos são rigorosos e visam garantir a saúde da doadora e da futura criança, reforça Bassega. São eles:
- Idade: a doadora deve ter entre 18 e 37 anos;
- Saúde geral: a doadora deve apresentar excelente estado de saúde física e mental, sem histórico de doenças genéticas hereditárias, infecciosas transmissíveis ou doenças crônicas que possam comprometer sua saúde ou a saúde do embrião e do futuro bebê;
- Avaliação médica: inclui exames ginecológicos completos, ultrassonografia pélvica para avaliação dos ovários e reserva ovariana, e exames de sangue para rastreamento de infecções (HIV, Hepatite B e C, Sífilis, HTLV, entre outras) e de doenças genéticas;
- Anonimato: a doação de gametas é anônima, ou seja, a identidade da doadora não é revelada à receptora e vice-versa.
Como é feita a coleta dos óvulos e a transferência embrionária para a receptora?
A coleta dos óvulos, também chamada de punção folicular, é realizada em ambiente hospitalar ou de clínica de reprodução assistida. Pode ser usada sedação ou anestesia leve, a ser administrada por um anestesista.
Durante a coleta, é usado um ultrassom transvaginal para guiar uma agulha fina através da parede vaginal até cada ovário. Os folículos são aspirados individualmente, e o líquido folicular contendo os óvulos é coletado em tubos de ensaio.
Um embriologista, presente no laboratório adjacente, identifica e avalia os óvulos sob um microscópio. “A doadora permanece em observação por algumas horas antes de receber alta. É comum sentir um leve desconforto abdominal ou cólicas”, explica Bassega.
O especialista explica que, na maioria dos casos, não são os óvulos doados que são transferidos para a receptora, mas sim os embriões resultantes da fecundação.
A transferência embrionária é realizada, geralmente, sem anestesia. Com a ajuda de um ultrassom abdominal para guiar o médico, os embriões são colocados no útero por um cateter fino e flexível. Após a retirada do cateter, o médico verifica ao microscópio se os embriões foram de fato liberados.
Após a transferência embrionária, a receptora deve seguir uma série de cuidados para otimizar as chances de implantação e gestação, incluindo repouso relativo, suporte hormonal (principalmente progesterona e, em alguns casos, estrogênio), evitar relações sexuais, monitoramento de sintomas e suporte emocional
*Os sobrenomes não foram divulgados para preservar a identidade do casal
Fonte: CNN Brasil




