De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro (IPL), publicada em 2024, 49% das mulheres e 44% dos homens possuem o hábito da leitura.
Este dado ganha uma relevância especial no contexto do Dia Internacional da Mulher, data que remete a uma trajetória histórica de luta por direitos, reconhecimento e igualdade, inclusive no campo cultural e intelectual, onde a produção feminina foi, por séculos, invisibilizada e subvalorizada apesar de sua contribuição à literatura e ao pensamento crítico.
Ana Paula Aguiar, autora de História do Sistema de Ensino pH, destaca que ao evidenciar obras escritas por mulheres, especialmente para o público jovem, amplia-se o repertório cultural e simbólico dos leitores, reconhecendo o protagonismo feminino como produtor de conhecimento, arte e pensamento.
Confira abaixo cinco indicações de obras literárias que contam com autoras mulheres selecionadas pela especialista:
Venham e juntem-se a Mim (1974) – Maya Angelou, Estados Unidos
Nesta autobiografia, Maya revisita sua juventude nos Estados Unidos pós Segunda-Guerra para narrar, com força literária e sensibilidade política, a experiência de ser uma mulher negra atravessada por desafios como maternidade solo, busca por autonomia e estratégias de sobrevivência em um contexto marcado pelo racismo estrutural.
A obra combina memória pessoal e reflexão social, construindo um retrato íntimo e ao mesmo tempo coletivo sobre formação, pertencimento e resiliência. Como observa Ana Paula, trata-se de uma “leitura potente sobre identidade, dignidade e resistência”.
As Meninas (1973) – Lygia Fagundes Telles, Brasil


O romance entrelaça trajetórias de jovens mulheres em meio ao ambiente opressivo da ditadura militar brasileira, explorando, com profundidade psicológica, as tensões entre desejo, moral, política e liberdade.
Por meio de personagens femininas multifacetadas, Lygia revelada como o contexto autoritário atravessa as relações, os corpos e as subjetividades, fazendo do livro uma narrativa sensível sobre conflitos individuais e coletivos.
Canção para ninar menino grande (2018) – Conceição Evaristo, Brasil


A coletânea articula contos atravessados por raça, gênero, violência e memória, para transformar experiências historicamente marginalizadas em matéria literária e política.
Com linguagem poética e contundente, Conceição expõe as marcas do racismo e da desigualdade social no cotidiano, ao mesmo tempo em que afirma afetos, ancestralidade e resistência como forças de sobrevivência e criação.
E não sobrou nenhum (1939) – Agatha Christie, Reino Unido (Inglaterra)


Clássico do romance policial, a obra combina suspense rigorosamente arquitetado com uma investigação moral sobre culpa, justiça e responsabilidade individual, conduzindo o leitor por uma trama em que cada personagem é confrontada por seus próprios atos.
Para além do enredo, Ana Paula diz que se trata de uma obra que “amplia o repertório dos estudantes ao apresentar uma autora que rompeu barreiras em um gênero literário historicamente dominado por homens”.
Norte e Sul (1855) – Elizabeth Gaskell, Reino Unido (Inglaterra)


O romance acompanha a trajetória de Margaret Hale em seu deslocamento do sul rural para o norte industrial da Inglaterra, usando essa mudança de cenário para iluminar as profundas transformações sociais do século XIX.
Gaskell constrói uma narrativa que tensiona relações de classe, condições de trabalho nas fábricas e os impactos humanos da industrialização, articulando crítica social e desenvolvimento psicológico da protagonista.
*Publicado por André Nicolau, da CNN Brasil




