AVISO: Este texto contém spoilers do filme “Pânico 7”. Caso você tenha interesse em assistir a obra e não queira detalhes acerca, leia em outro momento.
Há uma sequência de cenas em Pânico 7 que resume perfeitamente o desastre: Ghostface persegue a nova final girl em potencial, Tatum Evans (Isabel May), pelas ruas de Pine Grove. Com o toque de recolher instaurado pela cidade, os gritos de Tatum são inúteis.
Por quê? Porque todos os habitantes da cidade devem estar ocupados demais olhando para seus próprios celulares, assistindo a vídeos de gatinhos ou lendo notícias sobre como este filme é ruim. É uma metáfora acidental, mas dolorosamente precisa, do estado atual da franquia: um grito de socorro que ninguém mais aguenta ouvir.
A produção de Pânico 7 foi, como todos sabemos, um “pesadelo” (palavras do ex-diretor Christopher Landon, que abandonou o projeto em 2023). Mas o resultado final não é apenas um filme ruim; é um ato de vandalismo cinematográfico – e assim, entregaram a chave da loja para Kevin Williamson, um homem que claramente ama o cheiro de nostalgia pela manhã, mesmo que ela tenha o aroma de mofo.
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A Síndrome de Estocolmo de Sidney Prescott
O retorno de Neve Campbell como Sidney Prescott (agora Sidney Evans, porque aparentemente a it girl dos anos 90 vive uma vida pacata pós abrir uma cafeteria e se escondendo de psicopatas) é tratado com uma reverência que beira o culto religioso. Há closes dramáticos em objetos que deveriam ser apenas adereços, como se a jaqueta de couro original de Prescott de 1996 fosse o “Santo Graal”.
Mas a personagem em si? Ela é uma casca vazia. Williamson nos pede para acreditar que Sidney, a mulher que sobreviveu a múltiplos massacres, agora é uma mãe superprotetora que tenta esconder o passado sombrio (gravado em filmes, disponível em livros) de sua filha mais velha, Tatum.
A dinâmica é tão clichê e tediosa que parece ter sido roteirizada por qualquer inteligência artificial com um prompt mal especificado. Tatum é uma adolescente mimada e irritante que, ao invés de ser uma final girl carismática, age como o cachorrinho assustado que a franquia costumava zombar e nem quando finalmente se encontra como “a filha de Sidney Prescott”, você consegue criar afeto pela personagem. O desperdício de Mckenna Grace em um papel secundário é, por si só, um crime contra o elenco.
E onde está Patrick Dempsey como Mark Kincaid, o marido de Sidney? Negociações mal sucedidas por“conflitos de agenda”. O filme nos entrega Joel McHale em seu lugar, fazendo uma imitação barata de um xerife preocupado em uma troca tão gritante quanto substituir Coca-Cola por Dolly Guaraná.
Será que realmente vale atender as exigências de Neve Campbell para dar vida para a saudosa personagem enquanto as verdadeiras vítimas se tornam os telespectadores?
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IA: a nova desculpa para a preguiça crítica
Mas o verdadeiro crime contra a humanidade (e contra o horror/slasher) é o uso de inteligência artificial na trama. Ghostface agora usa deepfakes e sintetização de voz para ressuscitar fantasmas do passado de Sidney – sim, você leu certo. O filme invoca os mortos para aterrorizar Sidney, sua família e ciclo social.
Vemos versões digitalmente envelhecidas (e francamente assustadoras, mas não do jeito que se deveria ser em um filme de terror) de personagens que foram brutalmente assassinados nos filmes anteriores. Eles aparecem como ameaças ou, pior, como flashbacks interativos ao vermos de exemplo o retorno de Matthew Lillard como Stu Macher apenas para ser um verdadeiro pé no saco com o péssimo Ghostface – que eu até poderia escrever sobre, mas é tão irrelevante que não merece tal espaço – usando sua especialização em IAs para deixar a mente perturbada de Prescott confusa.
É uma artimanha que não apenas quebra a pouca lógica interna que a franquia ainda tinha, mas também é visualmente ridícula. É como assistir a um episódio de Scooby-Doo onde o vilão é um holograma mal renderizado.
O terceiro ato, que depende inteiramente dessa bobagem tecnológica, é tão catastrófico que eu me senti envergonhado por estar assistindo.
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Pânico costumava ser sobre subverter tropos do terror, e Pânico 7 é sobre implorar para que eles continuem existindo de uma forma hipócrita e desrespeitosa. O filme troca a metalinguagem afiada por uma autorreferência preguiçosa ao olhar para trás com tanta intensidade que esquece de sua originalidade e busca por qualidade no caminho.
Se fosse para definir Pânico 7 de forma simplória, poderíamos ter escrito que é um documentário sobre a decadência de uma franquia que não sabe quando morrer. É um golpe doloroso no legado de Wes Craven e uma prova de que a única coisa assustadora aqui é a possibilidade de uma sequência.
Como a própria franquia nos ensinou, o pior que você pode dizer é“eu volto já”. Por favor, não voltem. Deixe Sidney Prescott viver sua vida monótona na cafeteria. Ela (e nós) merecemos isso.
★★
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