Timur Bekmambetov é um dos principais nomes associados ao chamado cinema “screenlife”, formato que constrói a narrativa a partir de telas de computadores, celulares e outros dispositivos. Após dirigir Profile e produzir títulos como Unfriended, Searching e Missing, o cineasta volta ao subgênero com Justiça Artificial, thriller de ficção científica ambientado em uma Los Angeles futurista dominada por um sistema judicial controlado por inteligência artificial.
Na trama, crimes em níveis extremos levaram à criação do “Tribunal Mercy”, onde um algoritmo julga casos de pena de morte considerados quase certos. O detetive Chris Raven (Chris Pratt) acorda acusado de assassinar a própria esposa e passa a lutar contra o relógio para provar sua inocência, sendo interrogado pela juíza virtual Maddox (Rebecca Ferguson). Com memória fragmentada e histórico de alcoolismo, ele depende das provas digitais do tribunal e da ajuda de sua parceira Jaq (Kali Reis) para reconstruir os acontecimentos.
Quando a inovação visual encontra limites no roteiro
O filme encontra seu maior trunfo justamente no uso criativo do formato. Bekmambetov amplia o conceito de “screenlife” ao incorporar reconstruções digitais de cenas do crime, permitindo sequências de ação e maior dinamismo visual, algo raro no subgênero. O resultado evita a sensação de confinamento típica desse tipo de produção e dá ao suspense um ritmo mais cinematográfico.
Chris Pratt entrega uma atuação competente, transmitindo fragilidade e desespero sem abandonar o arquétipo do herói funcional. Já Rebecca Ferguson se destaca ao conferir camadas sutis à juíza artificial, criando uma presença fria, mas curiosamente empática. Kali Reis, apesar de ter uma personagem pouco desenvolvida, sustenta bem as cenas de ação.
O principal problema está no roteiro. Embora o filme apresente uma premissa provocadora sobre justiça automatizada, vigilância e pena de morte, evita aprofundar as implicações éticas e sociais desse sistema. Questões como manipulação digital, deepfakes e distorção de percepção, centrais no debate contemporâneo sobre IA, surgem apenas de forma superficial. Algumas decisões narrativas também entram em contradição com a própria crítica implícita ao tribunal automatizado, o que compromete a coerência dramática.
Há ainda improbabilidades estatísticas e soluções convenientes que enfraquecem o impacto dos mistérios centrais. Certas reviravoltas acontecem rápido demais, e detalhes importantes passam despercebidos mesmo em tela grande. Fica a impressão de que o roteiro precisaria de mais uma revisão para alinhar suas ambições temáticas com a lógica interna da história.
Ainda assim, Justiça Artificial funciona como entretenimento. É um suspense ágil, com boas atuações e uma abordagem técnica que aponta novos caminhos para o cinema “screenlife”. Mesmo com falhas conceituais e narrativas, o filme se sustenta como uma experiência curiosa e relativamente ousada dentro de um subgênero que raramente consegue se reinventar.
Justiça Artificial está em cartaz nos cinemas.
Nota: 6,5 / 10
Fonte: CINEPOP




