Pelas silenciosas estradas que cercam as montanhas do estado do Colorado, mãe e filho traçam uma nova rota que não pode ser tocada, mas que é capaz de ser sentida a quilômetros de distância. Enquanto cruzam parte dos Estados Unidos em direção à Califórnia, sua relação é colocada em perspectiva. À primeira vista, o motivo da viagem parece ser pouco republicano e aparentemente revela a gravidade de um jovem jogador de hockey com problemas de temperamento – expulso por agredir um adversário no pós-jogo.
Mas à medida que a paisagem muda ao redor, o que sabemos sobre esse pequeno mundo familiar também se transforma, reconfigurando nossa visão sobre lar, casa e raízes. E assim, Hot Water se apresenta como um impecável drama de viagem que nos convida para uma jornada pela redescoberta do sentido de família segundo a ótica de uma mãe imigrante e de seu filho inconsequente.
Como pinturas grandiosas que estampam terra e céus, as paisagens que marcam o trajeto entre Colorado e Califórnia por si só enchem os olhos e o peito com um desejo inexprimível de dirigir pelas estradas americanas, à procura das mesmas respostas que ambos os protagonistas anseiam. Acompanhados por um sol que aquece, mas não sufoca, e por pradarias que desenham o ecossistema que os cercam, eles fazem dessa viagem um balanço sobre a vida que construíram, nos levando consigo como pequenos intrusos que tentam entender esse particular recorte de suas histórias.
E Hot Water é o que acontece quando questionamentos profundos sobre pertencimento são incapazes de cessar na nossa mente. Embora a sinopse apenas indique que “uma mãe libanesa cruzará parte dos EUA para que seu filho passe a morar com o pai americano”, a verdade é que a beleza de toda a trama não se encontra no destino, mas sim nesse percurso vivido. Ao longo da trama, vemos a relação dos dois ganhar novas cores, enquanto vivem cada etapa do trajeto como uma experiência única de auto descoberta e descoberta mútua. É como se mãe e filho estivessem se reconhecendo, enquanto lidam com suas próprias questões, angústias e aflições não comunicadas.
Entre silêncios desconcertantes e momentos de euforia que são construídos como memórias afetivas para os protagonistas, o longa inaugural de Ramzi Bashour é quase uma poesia filmada e reside na simplicidade da relação familiar formada pelos atores Lubna Azabal e Daniel Zolghadri em tela. Diante de um dilema que envolve o desapego de uma mãe de seu filho adolescente, o drama com toques de comédia ainda prepara uma reflexão sobre a inerente relação que apátridas possuem com sua terra natal e como a angústia e o prazer de viver em um novo país caminham de forma entrelaçada. É como se não houvesse outro jeito de viver.
Sensível, delicado, mas também cheio de nuances narrativas, Hot Water é um drama suave sobre a vida e a necessidade de amadurecimento em qualquer idade. Nos transportando para dentro das telas, Bashour explora temas como o perdão, cura emocional e o poder que as conexões pessoais certas podem ter na nossa vida, por mais atípicas e adversas que elas aparentam ser. Como uma brisa do mar que nos aconchega ao tocar o rosto, ele é impecável em sua composição como um roadtrip movie e excepcional em sua identidade autoral.
E ainda que navegue por um gênero explorado em sua quase exaustão, o novato cineasta consegue fazer do filme algo totalmente seu. Por sua sensibilidade na construção de seus personagens e pelo casting certeiro que absorve a personalidade de seus protagonistas, Hot Water consegue ser original mesmo se encaixando em um formato. Visualmente belo, é sonoramente envolvente, é intimista. É realmente uma viagem a três, com a audiência sendo generosamente convidada a se esgueirar no banco de trás daquele velho sedan que desliza pelas amplas rodovias americanas.
Fonte: CINEPOP




