Assombrada por si mesma, Luz caminha pela vida com a constante tensão fruto do abuso sexual que sofreu dentro de um ônibus. Sua respiração ofegante denuncia a aflição da alma. O suor que escorre pelo seu rosto em constante alerta revela o desconforto que jamais se vai. E ela não é a única. Os campos áridos de Juarez, no México, são tomados pelo sangue de outras mulheres, vitimadas de forma permanente pelo mesmo crime. E é o “fardo” da sobrevivência que a leva em uma jornada de justiceira no drama A Caçadora, de Suzanne Andrews Correa.
Mas sua história, baseada em relatos reais, não é a de uma vigilante como nas tradicionais ficções. Ela não é a obstinada face de alguém cansada de testemunhar os mesmos crimes replicados em reportagens jornalísticas. Exausta da constante reprodução de seu trauma em sua alma, ela busca vingança como um silenciador de sua própria dor, ainda que esta não lhe traga de volta a paz de jamais ter sido violada por mãos imundas. Em sua caçada, ela se protege do constante pavor que a atormenta ao tentar blindar outras vítimas. Enquanto busca cada violentador para ceifar a terra com seu sangue, ela encerra o descompasso cardíaco que a persegue em cada esquina escura por onde anda.
E nesse trajeto cheio de conflitos morais, suores noturnos e uma pressão assustadora da corrupta polícia local, Correa nos apresenta Adriana Paz (Emilia Pérez) em uma performance estarrecedora, digna de uma indicação ao Oscar. E a atriz aqui se despe de tudo aquilo que poderia deixar sua atuação caricata, artificial, performática ou como uma sinalização política. Abandonando as ideologias que tomaram de assalto a pauta da luta contra crimes sexuais, ela apenas se concentra em entregar a crueza do sofrimento de uma mulher mergulhada em sua dor. E evidenciando a força do cinema mexicano – que desbanca o Brasil em qualidade cinematográfica quer você aceite ou não -, A Caçadora é um drama com ares de suspense psicológico, que aborda de forma rigorosa todas as dores que assolam a mente de uma sobrevivente de estupro.
Inerentemente uma representante de tantas vozes inaudíveis abafadas pela dor da perda, Luz vive aqui não a algoz imaculada das ficções pueris, mas sim uma voz resistente em um deserto onde corpos se espalham e ninguém faz nada. Heroína do cotidiano e da vida real, ela digladia com a decisão de puxar o gatilho, enquanto corre contra o tempo e contra as circunstâncias que a apavoram na espinha dorsal – tamanho seu medo de ver sua filha adolescente como a próxima vítima. E essa trama ganha sombras profundas e um sol escaldante que se contrastam em uma fotografia bela, mas sombria. Lindamente dirigido por Correa, que retorna ao Festival de Sundance 2026 após conquistar um prêmio na sessão de curtas do Festival em anos anteriores, o thriller dramático é um relato desconfortável sobre o silêncio de uma comunidade que aceita sucumbir ao medo e se torna refém de si mesma.
E sob essa fotografia escura, o pôr-do-sol que insiste em se esgueirar e que se expande pelos céus em algumas tomadas é a justaposição do nascimento da esperança sobre a escuridão do luto. É na verdade um anseio por dias melhores, em meio às agruras de uma alma calejada. E assim, A Caçadora cumpre sua missão pelas ruas e pelos ônibus da cidade de Juarez, solitária, sem rumo e com um alvo em sua testa, sob a incerteza de seu destino, mas a garantia de um passado sangrento vingado. Uma história contemporânea que metaforiza uma antiga lenda mexicana, que se encerra sem um tradicional fim hollywoodiano, mas com o mesmo acalento de que não há mal que dure para sempre. Ainda bem que bons filmes como esse duram sim.
Fonte: CINEPOP




