Impossível pensar na Cidade do México sem que o nome de Frida Kahlo surja quase imediatamente. Setenta e um anos após sua morte, ela segue inspirando exposições pelo mundo e, na capital mexicana, ainda movimenta filas e paixões.
Agora há um novo endereço para entender quem foi Frida além dos autorretratos. Em Coyoacán, a poucos quarteirões do Museo Frida Kahlo, conhecida como a Casa Azul, abriu em setembro de 2025 o Museo Casa Kahlo, também chamado de Casa Roja.
O vermelho vibrante da fachada é uma homenagem ao papel que a casa teve na história da família. “Este foi durante muito tempo o centro da vida familiar, onde viveram os pais de Frida e onde se concentravam os afetos da família”, me contou Alejandro García, gerente de conteúdo do museu. “Por isso a casa hoje assume esse vermelho.”
A abertura relativamente recente tem uma explicação simples: a casa permaneceu habitada pela família até pouco tempo. “Aqui viveu Cristina Kahlo e, depois, seus descendentes. A residência só deixou de ser familiar há cerca de dois anos”, explicou García.
Se na Casa Azul conhecemos Frida Kahlo como artista e mito, na Casa Roja encontramos a filha, a irmã e a tia – a Frida do círculo íntimo.


A casa da família
O imóvel da rua Aguayo 54 foi adquirido pela família em 1929, pouco depois do casamento de Frida com o muralista Diego Rivera. Com dívidas antigas quitadas, os pais da artista, Guillermo Kahlo e Matilde Calderón, decidiram se estabelecer ali.
O patriarca, Guillermo Kahlo, nasceu em Pforzheim, na Alemanha, e chegou ao México em 1890. Inicialmente trabalhou em negócios da comunidade alemã, antes de consolidar carreira como um dos principais fotógrafos de arquitetura e patrimônio do país no fim do século 19 e início do 20.
Seu trabalho chamou a atenção da Secretaria de Hacienda durante o governo de Porfirio Díaz. A partir de então, documentou edifícios públicos, templos e obras em diversos estados, além de registrar o processo de modernização da capital mexicana.
No Museo Casa Kahlo, Guillermo aparece como uma das bases da formação estética de Frida. O acervo reúne suas fotografias, aquarelas pouco conhecidas e até uma câmara escura montada em sua homenagem.


Uma das experiências mais interessantes acontece justamente nessa sala. Ali, experimentei tirar uma foto com Frida ao fundo e vi ela ser “revelada” digitalmente, em referência ao processo fotográfico tradicional. Um gesto simples e simbólico: sair dali também com uma memória revelada.


O caminho até Aguayo 54
Antes de se mudarem para Aguayo, a família viveu no centro da cidade. No fim do século 19, estabeleceu-se na Plazuela de Juan Carbonero, próxima à Alameda Central, onde nasceram as filhas Matilde e Adriana. Foi ali também que Guillermo montou seu primeiro estúdio fotográfico.
Anos depois, a família construiu a casa da rua Londres, em Coyoacán, onde nasceram Frida e Cristina. Já na década de 1930, Aguayo 54 se tornou o endereço definitivo.
A residência foi habitada até 2023, quando ainda moravam ali descendentes de Cristina Kahlo. Ao longo de quase um século, a casa acolheu quatro gerações e se consolidou como ponto de encontro entre pais, filhas e netos, onde os laços familiares eram cultivados no dia a dia.


Cristina esteve ao lado da irmã nos momentos mais difíceis. Depois de enfrentar a poliomielite ainda criança, Frida sofreu, aos 18 anos, o devastador acidente de bonde de 1925, que deixou marcas permanentes em seu corpo. Vieram então inúmeras cirurgias, e era Cristina quem permanecia ao lado dela, segurando sua mão.
Na Casa Roja, esse lado humano ganha destaque. Caminhando pelos cômodos, a sensação de intimidade e cuidado da família aparece o tempo todo.


Memória viva
O museu não se concentra em reproduções de obras famosas. Seu foco é a história da família Kahlo e os anos de formação da artista. Também há espaço para conhecer sua atuação como professora na Escuela Nacional de Pintura, Escultura y Grabado La Esmeralda, onde orientou alunos que ficaram conhecidos como “Los Fridos”.


Entre os aprendizes da artista está Arturo Estrada. Durante a visita, um detalhe me chamou atenção: ele segue produzindo arte até hoje, aos 100 anos.


Também estão expostas cartas trocadas entre Frida e familiares, além de correspondências que revelam inquietações, afetos e fragilidades da artista. A caligrafia, os termos carinhosos, as preocupações cotidianas… tudo ajuda a compor um retrato mais humano e menos monumental.
Parte significativa do acervo – especialmente a impressionante quantidade de cartas – foi preservada ao longo de décadas por Isolda Pinedo Kahlo, sobrinha de Frida e filha de Cristina, a única entre as irmãs que teve filhos. Vista pela artista como sua “menina dos olhos”, Isolda cultivou com a tia uma relação de grande proximidade e tornou-se a principal guardiã da Casa Roja e dos documentos que revelam seu lado mais íntimo.
“Quando Isolda morreu, em 2007, os parentes perceberam a dimensão do arquivo que ela havia preservado”, me contou Alejandro García. “Foi nesse momento que tudo começou a ser tratado como uma coleção.”
Entre as correspondências expostas, a que mais me emocionou foi uma carta datada de 8 de setembro de 1953, escrita poucos meses antes de sua morte, em julho de 1954. Nela, Frida fala com franqueza sobre a dor de não ter sido mãe, ao mesmo tempo em que celebra o nascimento da filha de Isolda: “Sabes o quanto te adoro e agora mais porque, tendo te presenteado a ti, agora me dás a tua menina e, assim, tenho dois amores. Os mesmos que quis ter vivos no meu ventre há tantos anos.”


Alguns dos itens que mais despertam a curiosidade do público são fotografias da infância de Frida com as irmãs, feitas por Guillermo Kahlo, entre elas registros da primeira comunhão de Frida e Cristina.
O acervo inclui correspondências de Frida com amigos próximos, algumas escritas para Antonio Ruiz, o El Corcito, fundador da Escuela Nacional de Pintura, Escultura y Grabado La Esmeralda. As cartas revelam o humor particular de Frida, que misturava palavras em inglês e espanhol. Há também um bordado feito por ela aos cinco anos, considerado uma peça muito especial.
A transformação da residência em museu foi liderada pela arquiteta mexicana Mariana Zepeda Orozco, bisneta do muralista José Clemente Orozco, enquanto a concepção curatorial ficou sob responsabilidade de Adriana Miranda. A proposta não foi reinventar o espaço, mas devolvê-lo à sua essência: os cômodos recuperaram a configuração original e preservam a atmosfera íntima que caracterizou a vida familiar ali. Até o jardim foi pensado como extensão dessa memória, concebido como área de acolhimento e pausa, mantendo o clima doméstico que definiu a casa por quase um século.


Na cozinha, foram restaurados murais com flores e árvores pintados por Frida, que permaneceram escondidos sob camadas de tinta após uma modernização do espaço. Submetidos a tratamento especial para a abertura do museu, voltaram a ocupar o lugar que sempre foi deles na casa.


São detalhes assim – as cartas, os murais recuperados, os ambientes preservados, as fotos da família – que aproximam o visitante da mulher de carne e osso, distante das reproduções infinitas e da imagem pop que o mundo consagrou. Caminhando pela casa, pude sentir que sua história ainda ecoa ali.


Vale a pena visitar a Casa Roja?
Se você está planejando sua viagem à Cidade do México, Coyoacán quase sempre entra no roteiro por causa da Casa Azul. Agora, vale reservar algumas horas extras para percorrer também a Casa Roja.
A experiência é complementar. Na Casa Azul, entendemos a força artística de Frida. Na Casa Roja, percebemos de onde veio sua resistência emocional.


O museu na Aguayo 54 conta com visitas guiadas das 9h às 16h50, o que enriquece a experiência ao acrescentar contexto e histórias familiares que nem sempre aparecem nos painéis expositivos. A programação cultural da Casa Roja também começa a se expandir e fará parte da programação da Noche de Museos e em datas relacionadas à família Kahlo.
A Cidade do México é dessas capitais onde a cultura não para de se reinventar. Novos museus surgem, bairros se transformam, mas certas histórias seguem pulsando. O Museo Casa Kahlo é uma oportunidade de enxergar a cidade por uma lente mais íntima e descobrir que, por trás do mito, existia uma mulher profundamente conectada às suas raízes.
Serviço
Onde? Aguayo 54, Coyoacán, Cidade do México.
Quando? De quarta a segunda, das 9h às 19h (fecha às terças); visitas guiadas das 9h às 16h50, em espanhol ou inglês (percurso livre entre 17h e 18h).
Quanto? 270 pesos (aproximadamente R$81, sujeito a atualização no site oficial).
Danielle Bellini é jornalista, mora na Cidade do México e escreveu um guia completo de lá; leia aqui
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