Em toda cidade há camadas desconhecidas pela maioria da população que a frequenta. Mundos e submundos divididos em becos, ruelas, parques, galpões, cheiros, cores, estéticas para além das paisagens apresentadas no dia a dia, nas cartilhas de turismo. É nesses recantos que muitas histórias acabam surgindo, e inspirando criadores e realizadores a contarem novas narrativas no audiovisual, como a que pode ser vista em ‘Ato Noturno‘, novo filmaço brasileiro que chegou essa semana ao circuito nacional.
Matias (Gabriel Faryas, ótimo em seu primeiro trabalho) e Fabio (Henrique Barreira, de ‘Os Donos do Jogo’) são dois atores que dividem o apartamento e disputam o protagonismo de uma peça prestes a estrear em Porto Alegre quando recebem a visita de uma diretora de elenco, em busca de um ator para estrelar sua mais nova série. A possibilidade do estrelado desperta ambições nos dois jovens, que farão de tudo para conseguir um lugar ao sol. Em paralelo aos sonhos, Matias marca encontros através de um app de relacionamentos, onde conhece o misterioso Rafael (Cirillo Luna, da novela ‘Reis’), candidato a prefeito da cidade e que mantém encontros às escondidas na campanha. Nesse ciclo de intensa paixão e muitos segredos, qual vontade irá se sobrepor ao final?
Vencedor do prêmio Felix do Festival do Rio 2025 e exibido no Festival de Berlim, ‘Ato Noturno‘ chega aos cinemas comprovando o sucesso que veio construindo ao longo do último ano: é um filmaço, com um roteiro instigante e muito bem realizado técnica e artisticamente.


Partindo de elementos hitchcockianos, os diretores e roteiristas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon constroem uma narrativa sensual, envolvente, que mistura ambição, intriga, desejo, limites e julgamentos me muitas camadas. Ninguém ali é totalmente o que parece, pois não pode sê-lo. É nesse “quase” que reside a angústia preliminar dos personagens – quase famosos, quase eleitos, quase conseguindo o papel, quase gozando, quase realizados, nem hetero o suficiente para galã, nem gay o suficiente para ser feliz. O limite do quase impulsiona as ações ao extremo, pois, no fundo, o que todo mundo quer é viver a plenitude de suas escolhas, custe o que custar.
É nesse ponto que entram as maiores influências de Hitchcock em ‘Ato Noturno‘. A fotografia em diagonal, entortada, os tons soturnos, as cores mais ofuscadas, o jogo de sombras e iluminação indireta, a janela indiscreta, o exibicionismo, o fetiche, o voyerismo encenados em uma cidade reconhecidamente enraizada em valores conservadores. Tudo isso pincelado por toques almodovarianos que conduzem a sedução dos protagonistas em falas aveludadas, contraste de cores quentes em closes, o ambiente confinador como potencializador de desejos num thriller inquietante.
Ousado, ‘Ato Noturno‘ mistura dois temas mega polêmicos: sexualidade e política. Mesmo em tempos como hoje, trazer um filme cujos vieses direcionais escancaram a impossibilidade da plenitude do ser por conta de máscaras e maquiagens sociais que engessam as pessoas em comportamentos previamente aceitos publicamente implica uma provocação involuntária no espectador, forçando-nos a pensar até onde realmente temos as liberdades que achamos ter e se realmente tudo, absolutamente tudo, terá um preço a se pagar.
‘Ato Noturno‘ abre a temporada de ótimos lançamentos nacionais este ano em alto nível.


Fonte: CINEPOP

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