Assassinato em Gosford Park | Há 25 anos, nascia uma das melhores sátiras de mistério do século

Assassinato em Gosford Park | Há 25 anos, nascia uma das melhores sátiras de mistério do século

O cenário cinematográfico britânico tem uma afeição notável por produções voltadas para o gênero de mistério – como é o caso de diversos clássicos aclamados pela crítica e pelo público, incluindo o irretocável ‘Desejo e Reparação’, além das duas versões da conhecida história ‘Assassinato no Expresso do Oriente’, da Dama do Crime Agatha Christie. Em 2001, Robert Altman resolveu mergulhar nesse mesmo espectro ao encabeçar o ambicioso mistério satírico ‘Assassinato em Gosford Park’ – mal sabendo, à época, que estaria construindo um clássico instantâneo que se tornaria um dos longas mais elogiados e prestigiados do ano.

Inspirando no clássico francês ‘A Regra do Jogo’, de Jean Renoir, Altman nos levou para o efervescente e arbitrário panorama aristocrático inglês dos anos 1920, onde a guerra cultural entre e Estados Unidos continuava a crescer, principalmente no âmbito artístico. Bombardeados pela popularização do jazz e do hollywoodiano, os membros de uma respeitada família se reúnem em meio às hipocrisias de tradições banais e supérfluas para um fim de semana de caça na propriedade do patriarca Sir William McCordle (Michael Gambon), um poderoso, abastado e sórdido industrialista que menospreza basicamente qualquer um que cruze seu caminho. Casado com Sylvia (Kristin Scott Thomas), filha do Conde de Carton e irmã de Louisa (Geraldine Somerville), William atraiu certos inimigos, olhares de reprovações e vendetas pessoais em virtude de sua personalidade dura e resoluta.

Vivendo na suntuosa mansão, estão as dezenas de serviçais a mando de Sir William e Lady Sylvia, incluindo a criada, Srta. Wilson (Helen Mirren), a cozinheira, Srta. Croft (Eileen Atkins), o mordomo, Sr. Jennings (Alan Bates), a governanta, Elsie (Emily Watson) e muitos outros. A iminente reunião anuncia a chegada dos outros membros da extensa família de William, como a Condessa Viúva de Trentham, Constance (Maggie Smith) e sua dama de companhia Mary Maceachran (Kelly Macdonald); o primo de Sir William, o astro de cinema Ivor Novello (Jeremy Northam), ao lado do produtor Morris Weissman (Bob Balaban) e do valet Henry Denton (Ryan Phillippe); Lorde Stockbridge (Charles Dance), cunhado de Lady Sylvia e esposo de Louisa, bem como seu manobrista e serviçal Robert Parks (Clive Owen); e muitos outros.

Como podemos ver, o cenário do longa-metragem é próprio para uma divertida tragicomédia de erros que explora as controversas atitudes da aristocracia britânica – e não apenas faz isso de maneira maravilhosamente sarcástica e pungente, como abre espaço para uma meticulosa artimanha que culmina no assassinato de Sir William, atacado com uma faca no centro do coração. A partir daí, cabe ao público, acompanhado da presença quase absurdista do Inspetor Thompson (Stephen Fry) e do Policial Dexter (Ron Webster), que interrogam os principais suspeitos do homicídio à medida que desenrolam, em segundo plano, um caso impossível de vingança, amor familiar e justiça.

Toda a ambientação do longa parte de um princípio muito claro de resgatar as atemporais histórias de mistério britânicas e whodunnit que continuam com popularidade enorme, vide o legado que tais narrativas deixaram no cenário do entretenimento, literário e audiovisual. Todavia, Altman não deseja construir uma mera emulação de tantas outras produções similares, e sim nos guiar por um enredo que destina-se a um poderoso e dramático anticlímax que nos deixa em êxtase justamente por não seguir o caminho mais óbvio. E, nessa questão, os comentários críticos deixados pelo roteiro de Julian Fellowes seguem os passos de Renoir no filme de 1939 e irrompem em uma epifania comovente e memorável.

É notável a influência que o filme teve em produções subsequentes, ampliando a noção de ensemble de maneira exponencial e inspirando nomes como Kenneth Branagh e Rian Johnson a encabeçarem franquias que reviveriam o mistério mais uma vez no cinema e nos streamings, com ‘Assassinato no Expresso do Oriente’ e ‘Entre Facas e Segredos’, por exemplo. E, dentro do espectro de ‘Gosford Park’, o estelar rende-se a performances incríveis, desde veteranos da como Gambon, Smith, Thomas e Dance, até que explodem em trabalhos impecáveis na tela, como Watson, Phillippe e Owen. Cada um deles tem o seu momento de brilhar, envolvidos em intrincados arcos que tornam todos suspeitos e com motivos bem claros para se livrarem de Sir William.

O cuidado técnico e artístico do longa não se resume apenas à sólida direção de Carnahan ou ao comprometimento dos atores e atrizes, mas a um conjunto de aspectos calcados em atenção máxima aos detalhes. A de Andrew Dunn, por exemplo, navega entre a disparidade social que separa os aristocratas dos serviçais, colocando-os em núcleos muito bem estruturados que os isolam em convicções irredutíveis antes de reuni-los em algo em comum que balança as estruturas outrora engessadas dessas engrenagens; a , por sua vez, coloca as habilidosas mãos de Patrick Doyle para reger uma orquestra melodramática e suntuosa que, mais uma vez, reitera o espectro ambíguo do projeto.

Vinte e cinco anos depois de chegar aos cinemas e ser banhado com elogios intermináveis, ‘Assassinato em Gosford Park’ continua como uma das melhores produções do gênero de mistério do século, aliando-se a um caráter satírico e crítico genial e diabolicamente divertido.

Lembrando que o filme está disponível no .

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Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

Fonte: CINEPOP

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