As expectativas para a inflação medida pelo IPCA, conforme o Boletim Focus, vão “convergindo” lentamente, testando a determinação das autoridades e a paciência dos políticos (e do Palácio em particular). O acordo de paz que existe entre o Banco Central e o resto da Esplanada prevê que se possa começar a redução de juros no próximo Copom, marcado para 17 de março. Para que esta promessa possa ser cumprida sem problemas, é essencial que as expectativas para a inflação sigam disciplinadamente para a meta. Mais precisamente para o centro da meta.
Todos acompanham na vírgula, e torcem.
Em sua edição mais recente, disponível na segunda feira 2 de março, com pesquisa com data em 27 de fevereiro, a expectativa para a inflação medida pelo IPCA em 2026 estava em 3,91%, mantendo lenta tendência de queda. A meta é de 3%, com intervalos de tolerância de 1,5%. As expectativas já entraram, portanto, no intervalo de tolerância, mas o ideal é que estivessem no centro da meta.
Ainda restam duas segundas-feiras até o dia 17 de março, duas pesquisas Focus antes do dia em que o Copom se reúne. Mantido o ritmo das últimas semanas, as expectativas não chegarão a 3%, mas, muito provavelmente, o Copom cumprirá o que prometeu em seu comunicado de 28 de janeiro (referente à 276ª reunião). O texto exato da promessa foi “o Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.”
Espera-se, assim, que a próxima reunião do Copom traga o início de uma sequência de cortes que levaria a Selic para 12%, segundo o Focus, e prosseguiria, mas não muito mais para baixo: o Focus projeta 10,5% para 2027 e 10,0% para 2028.
Os números para a atividade econômica foram mais fracos em dezembro, e o câmbio também tem ajudado. Tudo parece indicar que a promessa será cumprida.
Tudo o mais vai se organizando em torno das eleições que se aproximam. O governo prepara uma medida econômica para servir como seu grande trunfo eleitoral, o fim da escala 6×1. Talvez seja o exemplo mais perfeito de medida eleitoreira: o governo não sabe (tampouco os acadêmicos) os impactos, que talvez mesmo não sejam positivos para a economia e para a produtividade, mas tem certeza sobre a popularidade da medida.
Claro que este não deveria ser o critério para a definição de políticas públicas. Mas o impacto na popularidade e aprovação do presidente deve ser positivo. Exatamente como seria o resultado um aumento de 200% ou 300% no salário-mínimo ou no Bolsa Família.
Os limites para esse tipo de medida foram testados em múltiplas ocasiões por líderes populistas na América Latina. Há uma fala famosa acerca desses limites, do próprio Juan Domingo Perón em carta para um amigo político: “dê ao povo tudo o que for possível. Quando lhe parecer que você está dando muito, dê mais. Você verá os resultados. Todos irão lhe apavorar com o espectro de um colapso econômico. Mas tudo isso é uma mentira. Não há nada mais elástico que a economia, que todos temem tanto porque ninguém a entende”.
Estimativas cuidadosas para os efeitos da medida já circulam e o tom é cauteloso. Ainda que o número médio de horas trabalhadas (por semana) na economia possa ser inferior a 40, muitos grupos serão atingidos e nesses casos pode haver problemas. Em suma, os analistas e especialistas não estão certos sobre os efeitos de uma medida que o governo toma como o seu grande trunfo eleitoral.
No capítulo das más notícias, nem todas saem do noticiário policial: um aumento de tarifas de importação para bens de capital e bens de informática repercutiu muito mal, a ponto de a medida ser revogada, ainda que não totalmente, pouco mais de uma semana depois.
No plano político, surpreendeu o resultado da primeira pesquisa de intenção de voto trazendo Flávio Bolsonaro como o grande adversário de Lula num pleito polarizado entre os dois. Seria o melhor cenário para o presidente da República, mas não necessariamente o que vai se apresentar. Segue a indefinição da candidatura do PSD – Ratinho Junior, Eduardo Leite ou Ronaldo Caiado – que deve se resolver até 15 de abril, segundo afirma o presidente do partido, Gilberto Kassab.
Ainda em fevereiro, a Suprema Corte nos EUA derrubou o aumento de tarifas feito pelo presidente Trump no que denominou de “liberation day”. Também nos EUA um tribunal superior pode derrubar um plano heterodoxo. Trump encontrou outra base legal para manter as tarifas onde estão, mas não conseguirá evitar a obrigação de devolver os recursos arrecadados com uma tarifa considerada inconstitucional. É uma situação vexaminosa, que ocorreu algumas vezes no Brasil na época dos planos econômicos heterodoxos.
Mas tudo isso passou para o segundo plano quando, no último dia do mês de fevereiro, Estados Unidos e Israel dispararam um ataque coordenado ao Irã, dando início a um conflito de extensão e dimensões difíceis de prever.
Fonte: Exame




