Durante décadas, a noiva de Frankenstein existiu mais como símbolo do que como personagem. Sua imagem se tornou um ícone do cinema gótico, mas sua presença sempre foi breve e discreta, reduzida a poucos minutos de tela e praticamente nenhuma voz dentro da narrativa que a consagrou no imaginário popular em A Noiva de Frankenstein, de 1935.
A Noiva!, nova leitura de Maggie Gyllenhaal, parte justamente dessa lacuna e, ao invés de revisitar o mito apenas pelo olhar da criatura, desloca o eixo da traama para quem sempre esteve à margem dela. O filme pergunta o que acontece quando essa mulher finalmente passa a existir dentro de sua própria história e, mais importante, quando decide não aceitar o papel que lhe foi designado.
A busca por identidade
Ambientado na Chicago dos anos 1930, o filme acompanha o solitário Frank (Christian Bale), que procura a cientista Dra. Euphronius (Annette Bening), pedindo que ela crie alguém que possa ser sua companheira. A solução encontrada é desenterrar o corpo de uma mulher assassinada e trazê-la de volta à vida.
Dessa experiência nasce a Noiva, interpretada magistralmente por Jessie Buckley, que desperta sem saber exatamente quem foi antes da morte e passa a perseguir algo que parece elementar, mas se torna uma analogia que conduz toda a narrativa: descobrir seu próprio nome.
A busca não funciona apenas como um mistério sobre o passado da personagem, mas como um processo de construção de identidade, levando o filme para um território que vai além da própria ficção científica. Sua necessidade de se entender no mundo conduz o enredo, mas o que se desenvolve ao redor dela é um retrato de mulheres tentando existir dentro de estruturas que insistem em enquadrá-las.
Ao longo da história, a Noiva é tratada como monstro diversas vezes, algumas delas antes mesmo de se tornar uma morta-viva, e a ironia dessa acusação atravessa todo o filme. Enquanto esse rótulo é constantemente utilizado para enquadrar a personagem, são os homens ao redor dela que exercem controle sobre seu corpo, suas escolhas e sua moralidade, criando um contraste que o roteiro explora como fio condutor em seu subtexto.
A trama, no entando, não se contenta apenas com a mensagem e subverte as expectativas. A Noiva recusa o papel de companhia obediente, rejeita os “bons costumes”, se torna símbolo de uma revolução e passa a agir por conta própria, desencadeando perseguições, conflitos e uma reação em cadeia que ultrapassa o drama individual.


Um manifesto feminino dentro do mito
O filme espalha esse movimento por outras figuras femininas que também tentam ocupar espaços negados, como a detetive Myrna Mallow (Penélope Cruz), que enfrenta resistência constante ao exercer autoridade em um ambiente dominado por homens, e a própria Dra. Euphronius, que revela ter publicado seus estudos sob um nome oculto — estratégia usada para contornar as limitações impostas às cientistas da época.
Essas trajetórias paralelas expandem o alcance do conflito para diversas vertentes, deixando de ser apenas uma história sobre uma criatura tentando entender quem é e se tornando um reflexo das diferentes formas de resistência feminina dentro de uma estrutura social que insiste em limitar essas personagens.
Nesse contexto, Jessie Buckley domina o filme com uma presença física visceral. Sua personagem ocupa espaço de forma expansiva: dança, grita, fala sem filtro e se movimenta com uma energia que parece rejeitar qualquer tentativa de contenção. Sua Noiva não se trata apenas de uma interpretação intensa, mas de uma construção de personagem que cresce justamente ao recusar molduras narrativas tradicionais.


Estética gótica, energia punk e um filme que recusa rótulos
Parte da força do filme está também nas escolhas visuais de Maggie Gyllenhaal. A Noiva! não tenta reproduzir o terror clássico de Frankenstein, mas cria uma atmosfera que mistura elementos góticos com uma energia quase punk, marcada por excesso, intensidade, frenesi e uma sensação constante de descontrole.
A trama oscila entre gêneros sem tentar estabilizar o tom. Em certos momentos, o filme se aproxima de um thriller policial à lá Bonnie & Clyde, especialmente quando a perseguição à protagonista ganha força. Em outros, mergulha no drama íntimo entre os personagens, enquanto a ficção científica aparece como motor da própria existência da Noiva.
Há ainda um componente de romance distorcido que atravessa toda a trama. A relação entre Frank e a Noiva nasce da solidão e da necessidade de conexão, mas rapidamente revela uma dinâmica emocional instável, marcada por desejo e dependência, que se desenvolve em identificação e compreensão.


Entre força narrativa e algumas fragilidades
A direção de Maggie Gyllenhaal privilegia o comportamento dos personagens em vez de grandes explicações sobre o funcionamento desse universo. O filme avança com ritmo acelerado e aposta na energia das cenas, permitindo que as tensões entre os personagens conduzam a história.
Essa escolha, no entanto, também expõe algumas fragilidades. Longe de interferir profundamente no resultado final da obra, o processo que traz a Noiva de volta à vida acontece com uma facilidade que enfraquece parte da lógica interna do filme.
A ciência apresentada como capaz de ressuscitar alguém surge quase sem obstáculos e produz uma personagem surpreendentemente saudável, o que reduz o peso dramático de um evento que deveria carregar consequências maiores.
Mesmo assim, o filme mantém interesse ao transformar o mito de Frankenstein em algo menos preocupado com o horror clássico e mais interessado nos debates que propõe à partir desse cenário. O resultado é uma ode ao feminino que certamente dividirá opiniões com a visceralidade de sua narrativa.
A Noiva! está em cartaz nos cinemas.
Fonte: CINEPOP



