Feminicídio: o sentimento de posse

Feminicídio: o sentimento de posse

O crescimento dos casos de feminicídio no reforça um alerta que vai além das estatísticas: revela uma violência persistente, estrutural e marcada pelo sentimento de posse, pelo controle e pela não aceitação do fim de relacionamentos. Mesmo com o endurecimento das leis, os números seguem altos e mostram que a punição, sozinha, não é suficiente para romper o ciclo de agressões.

Dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública do () apontam que o estado registrou 68 casos de feminicídio em 2024, contra 51 no ano anterior. Já em 2026, apenas nos meses de janeiro e fevereiro, foram contabilizados três casos consumados e 25 tentativas. No mesmo período do ano passado, haviam sido registrados oito feminicídios e 20 tentativas.

Os dados revelam um cenário em que, mesmo quando o crime não é consumado, a da violência já estava em curso, frequentemente antecedida por ameaças, perseguições, agressões físicas e psicológicas.

Tentativas também são sobrevivências
Para a diretora da Casa da Mulher Brasileira, Susan Lucena, é preciso cuidado ao tratar os casos de tentativa de feminicídio. “Eu tenho visto algumas pessoas tratando a tentativa de feminicídio como se fosse pior que o feminicídio, e não é isso. A tentativa são as que sobreviveram ao feminicídio, independentemente da vontade do homem”, explica.

Susan reforça que toda agressão deve ser encarada como sinal de risco. “O ciclo da violência começa, muitas vezes, com controle excessivo, ciúmes, ameaças. Quando a mulher decide romper, esse é um dos momentos de maior perigo”.

Fim de semana violento no interior
O último fim de semana foi marcado por dois feminicídios no interior do Maranhão, ambos seguidos do suicídio dos autores, evidenciando o impacto devastador desse tipo de crime.

Auriane Silva Castro foi morta a facadas pelo companheiro em Itinga do Maranhão
Em Itinga do Maranhão, no bairro Coqueiral, Auriane Silva Castro foi morta a facadas pelo companheiro, Charles Bezerra da Silva, na noite de sábado (28). Após o crime, ele se lançou na frente de um caminhão e morreu. No mesmo dia, na zona rural de Nina Rodrigues, no povoado Vila Munim, Joana de Carvalho, de 30 anos, mãe de quatro filhos, foi assassinada a facadas pelo ex-companheiro, Alberton dos Santos, conhecido como “Branco”. Em seguida, ele tirou a própria vida com uma espingarda.

Joana de Carvalho, de 30 anos, mãe de quatro filhos, foi assassinada a facadas pelo ex-companheiro, em Nina Rodrigues. ( Foto: Reprodução)

Casos como esses impõem um desafio adicional às investigações, já que a punibilidade é extinta com a morte do autor. No entanto, o trauma permanece, sobretudo para filhos e familiares que enfrentam perdas abruptas e violentas.

Casos recentes e padrão recorrente
Na capital, episódios anteriores também evidenciam o padrão de controle e inconformismo com o término. O caso de Rafaela Moraes, morta pelo ex-companheiro que não aceitava o fim do relacionamento, terminou com ambos sem vida.

Rafaela Moraes foi morta pelo ex-companheiro que não aceitava o fim do relacionamento. (Foto: Reprodução)

Outra ocorrência que causou forte comoção foi a tentativa de feminicídio contra a enfermeira Sarah Julia Melo, atacada pelo ex-marido após ser atraída sob falso pretexto envolvendo a filha. A vítima relatou histórico de ciúmes excessivos, controle e ameaças. “Em todo momento eu me debatia, eu gritava e eu lutava a todo custo para poder me salvar daquilo. Aí foi que, em determinado momento, ele falou que não mais me matar, mas que ele ia me deixar deformada, ia me deixar cega. Para que eu vivesse com aquilo pro resto da minha vida”.

A enfermeira Sarah Julia Melo, atacada pelo ex-marido após ser atraída sob falso pretexto envolvendo a filha. (Foto: Reprodução)

Recorde nacional e uma década de mortes
O contexto maranhense acompanha uma tendência nacional. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, o Brasil registrou cerca de 1.470 feminicídios em 2025, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015. A média é de quatro mulheres assassinadas por dia por motivação de gênero.

Entre 2015 e 2025, mais de 13 mil mulheres foram vítimas de feminicídio no país. A maioria dos casos está relacionada à violência doméstica e ocorre dentro de relações íntimas. Casos recentes ganharam repercussão nacional, como o de Tainara Souza Santos, morta após ser atropelada e arrastada pelo ex-companheiro na capital paulista, e o de sua amiga, Priscila Ribeiro Verson, também vítima de feminicídio meses depois em São Paulo. Os crimes chocaram o país pela brutalidade e reforçaram um padrão recorrente: mulheres assassinadas por homens que não aceitam o término.

Em , o Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o combate ao feminicídio será prioridade em 2026, destacando que a responsabilidade pelo enfrentamento da violência é de toda a sociedade, especialmente dos homens.

Avanços legais e desafios
O feminicídio foi incluído como qualificadora do em 2015 e, em outubro de 2024, passou a ser crime autônomo com a sanção da Lei nº 14.994/2024. A nova legislação estabelece pena de 20 a 40 anos de reclusão, classifica o crime como hediondo e amplia agravantes.

Susan Lucena lembra que também houve avanço no Judiciário. “Quando a lei foi criada, víamos julgamentos demorarem cinco ou seis anos. Hoje existe a meta 8 do CNJ, que estabelece que os feminicídios sejam julgados no mesmo ano em que ocorreram. Isso tem sido cumprido”.

Apesar disso, ela reforça que a mudança precisa ser cultural. “Não adianta só punir depois. É preciso prevenir, educar para igualdade, fortalecer a rede de proteção e garantir autonomia às mulheres”.

Onde buscar ajuda
Mulheres em situação de violência podem procurar:

Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher (24 horas, gratuito e confidencial);
190 – , em caso de emergência;
Delegacias da Mulher – para registro de ocorrência e solicitação de medidas protetivas;
188 – Centro de Valorização da Vida (CVV), para apoio emocional e prevenção ao suicídio.

Fonte: O Imparcial

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