O governo federal vai replicar, na Zona da Mata de Minas Gerais, a estratégia adotada na reconstrução das cidades atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024. Depois de visitar, na manhã de ontem, as duas cidades mais afetadas pelos temporais do início da semana — Ubá e Juiz de Fora —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu ajuda aos prefeitos e aos moradores que tiveram prejuízos com as enchentes e deslizamentos de terra.
“Nós iremos ajudar os prefeitos a recuperarem as suas cidades, nós iremos ajudar os pequenos empresários a poderem ter crédito para recuperar as suas empresas, nós vamos recuperar o que houve de estrago na saúde, o que houve de estrago na educação e, sobretudo, a gente vai dar casa para as pessoas que perderam as casas”, declarou o petista.
Assim como fez na catástrofe gaúcha, o presidente deve nomear um ministro para fazer o acompanhamento das ações de reconstrução. O Executivo pretende adotar o mecanismo de compra assistida para quem perdeu a moradia na tragédia, segundo o chefe do Planalto. Nesse modelo, se as casas estão em área de risco, o governo pode comprar imóveis em outros locais.
Braço operacional dos recursos emergenciais, a Caixa Econômica Federal vai coordenar os processos de aquisição de imóveis, em parceria com as prefeituras. “A compra assistida é um sucesso absoluto (no Rio Grande do Sul) que, hoje, se estende a todo o território nacional como uma forma de mitigar a questão da recuperação habitacional, algo tão desejado pelo brasileiro”, disse o presidente do banco estatal, Carlos Antônio Vieira, que integrou a comitiva.
Ele anunciou, também, que estarão disponíveis, a partir de amanhã, os recursos do saque-calamidade do FGTS para todos os trabalhadores das áreas atingidas.
Sobrevoo
A comitiva palaciana desembarcou no Aeroporto Presidente Itamar Franco, em Goianá, de onde seguiu, de helicóptero, para Ubá, a 80km de distância. A cidade registrou a morte de seis pessoas e ainda procura por dois moradores, que estão na lista de desaparecidos. Lula visitou um departamento de assistência social que foi invadido pelas chuvas, no centro da cidade. No local, idosos tiveram que ficar em cima de colchões até o resgate.
“Fiquei profundamente comovido com a dor e os prejuízos causados pelas fortes chuvas que atingiram a região”, escreveu o presidente em uma postagem na rede social X, em referência ao que viu em Ubá.
Depois, a delegação seguiu para Juiz de Fora, a 100km de Ubá. Depois de sobrevoar os bairros mais afetados, o presidente caminhou, com a prefeita Margarida Salomão (PT), por algumas ruas da cidade. Ele viu o trabalho de retirada de escombros e de desobstrução e limpeza de vias públicas, e encerrou a visita em uma escola municipal que virou abrigo de famílias que não têm como voltar para casa.
Acompanharam o presidente Lula na visita à Zona da Mata os ministros Jader Filho (Cidades); Macaé Evaristo (Direitos Humanos e da Cidadania); Alexandre Silveira (Minas e Energia); Alexandre Padilha (Saúde); e Waldez Góes (Integração e do Desenvolvimento Regional). O senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) — um dos nomes preferidos de Lula para disputar o governo do estado, em outubro — e a primeira-dama, Janja da Silva, também participaram da visita.
Número de mortos chega a 70
Cinco dias após os temporais que deixaram, até o último balanço das autoridades, 70 mortos e um rastro de destruição na Zona daMata mineira, militares do Corpo de Bombeiros e do Exército, agentes da Defesa Civil e voluntários ainda trabalham para desobstruir vias, retirar entulho de casas desabadas e tentar encontrar os três últimos desaparecidos que ainda constam das listas de buscas — dois em Ubá e um em Juiz de Fora.
No Bairro Carmelo, em Juiz deFora, as equipes de resgate têm a ajuda de cães farejadores paratentar localizar o menino Piettro Theodoro, de 9 anos. A irmã, Sophia; a avó Neide Aparecida; e o namorado da mãe dele, Davi de Souza, não resistiram ao desabamento da casa em que moravam. A mãe de Piettro, a enfermeira Jaqueline Vicente, chegou a ser resgatadacom vida depois de passar 15 horas sob os escombros, mas morreu na última quarta-feira.
Em Matias Barbosa — que ainda tem bairros inteiros sob as águas da enchente —, não houve registro de mortes, mas quase mil pessoas estão desalojadas ou desabrigadas. Praticamente toda a área central da cidade ficou submersa após as chuvas que desabaram na madrugada de terça-feira. O número de mortos aumentou de sexta-feira para sábado com a inclusão do registro de óbito de, pelo menos, quatro pessoas que chegaram a ser resgatadas com vida, mas não resistiram e morreram em unidades hospitalares. O corpo de um homem foi encontrado, na manhã de ontem, no Bairro Linhares, em Juiz de Fora.
A cidade conta mais de 4,2 mil desabrigados, dez vezes mais que em Ubá, que abriga, temporariamente, 421 pessoas sem condições de voltar para casa. De acordo com a prefeita Margarida Salomão, de cada quatro habitantes do município, um mora em área de risco, o que obriga o Poder Público a adotar medidas estruturais para aumentar a resiliência das comunidades às emergências climáticas.
Na sexta-feira, o Ministério daIntegração e do Desenvolvimento Regional, por meio da Defesa Civil Nacional, autorizou o repasse deR$ 6,196 milhões para ações de resposta em sete municípios atingidos por desastres naturais em Minas Gerais, no Piauí e no Rio Grandedo Sul. Ubá e Matias Barbosa estão entre os contemplados.
* Correio Braziliense
Fonte: O Imparcial




