Um relato publicado nas redes sociais por um turista britânico tem gerado grande repercussão e aberto um importante debate sobre racismo, representatividade e turismo no Brasil.
O jovem, que é negro, visitou Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina, e saiu decepcionado. Em seu desabafo, ele conta que viveu uma situação constrangedora e afirma que não recomenda a cidade para outros turistas. Ao mesmo tempo, ele compara a hospitalidade e belezas que viu em cidades do Nordeste.
“Porque a praia é boa também. Tem a praia em Maceió, tem a praia em João Pessoa, tem a praia de Fortaleza, que são lindas também. E eu sinto que tudo aqui é muito desagradável. Isso é um playground de pessoas ricas.”
Antes de mais nada, vamos entender o que aconteceu e por que esse caso está dando o que falar.
O que disse o turista ‘gringo’?
O britânico compartilhou sua experiência em um vídeo que rapidamente viralizou. Segundo ele, a cidade bonita e bem estruturada não compensa o desconforto que sentiu.
Principais pontos do relato:
| ASPECTO | O QUE ELE DISSE |
|---|---|
| Abordagem | Uma pessoa pediu para tirar foto com ele, e ele acredita que foi por causa da cor da sua pele |
| Comparação | Disse que situações assim acontecem na China, mas nunca imaginou que veria no Brasil |
| Música ambiente | Só ouviu reggaeton, nenhum samba, forró, MPB ou funk |
| Idioma | Ouviu mais espanhol do que português pelas ruas |
| Estrutura | Reconheceu que as praias são boas, mas disse que Maceió, João Pessoa e Fortaleza também têm |
| Clima da cidade | Chamou Balneário Camboriú de “playground de pessoas ricas” |
| Comparação com Londres | Disse que viu tantos carros de luxo (Porsche, Lamborghini) quanto vê na capital inglesa |
| Conclusão | “Essa é a primeira cidade no Brasil que eu não recomendo vir. Não tem a energia boa do Brasil” |
Entendendo a comparação
O turista fez uma observação importante em seu relato: ele lembrou que o Brasil tem a maior população negra fora da África. Segundo dados do IBGE, cerca de 56% da população brasileira se declara preta ou parda.
Por isso, ele estranhou tanto a abordagem que sofreu quanto a falta de elementos da cultura afro-brasileira na cidade que visitou.
Até agora, eu senti que essa é a cidade menos brasileira que eu já vi. Não ouvi pagode, não ouvi samba, não ouvi forró, nem MPB, nem funk, não ouvi nada. A única música que eu ouvi foi reggaeton. Eu amo reggaeton, mas cadê o Brasil nisso? Hoje, eu ouvi mais espanhol do que português nas ruas.
Essa frase resume o estranhamento que ele sentiu: uma cidade brasileira onde ele não se sentiu no Brasil.
Turista britânico conta experiência desagradável em Balneário Camboriú (SC) e diz que não recomenda a cidade: “Me abordaram como se nunca tivessem visto um negro. Não vá a essa cidade, não tem a energia boa do Brasil” pic.twitter.com/LX5xA5mH49
— Pragmatismo Politico (@Pragmatismo_) February 26, 2026
Balneário Camboriú: A Dubai Brasileira
Balneário Camboriú é conhecida como a “Dubai brasileira” por seus arranha-céus de luxo, shoppings sofisticados e alto custo de vida. A cidade atrai turistas de todo o país e do mundo, especialmente da Argentina e de outros países vizinhos.
Perfil da Cidade
| CARACTERÍSTICA | REALIDADE |
|---|---|
| População | Cerca de 150 mil habitantes (que pode triplicar no verão) |
| Economia | Fortemente baseada no turismo de luxo |
| Público visitante | Argentinos, paraguaios e turistas de alta renda |
| Paisagem urbana | Prédios altos, orla revitalizada, muitas lanchas e carros importados |
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O que o relato do turista revela?
O relato do turista britânico levanta pelo menos três questões importantes:
1️⃣ RACISMO ESTRUTURAL
Mesmo num país majoritariamente negro, pessoas negras ainda sofrem situações constrangedoras. Ser abordado para tirar foto “por ser diferente” é uma forma de racismo, mesmo que muitas vezes não seja percebida como agressiva.
2️⃣ APAGAMENTO CULTURAL
Balneário Camboriú, como muitos destinos turísticos de luxo, às vezes prioriza uma estética “internacional” em detrimento da cultura local. O turista sentiu falta justamente do que faz o Brasil ser Brasil: nossa música, nossa língua, nossa diversidade.
3️⃣ TURISMO PARA QUEM?
A cidade se consolidou como destino para quem tem alto poder aquisitivo. Mas será que isso significa abrir mão da identidade brasileira? O relato mostra que até turistas estrangeiros estranham quando o Brasil tenta “não parecer Brasil”.
Qual o Brasil que queremos mostrar?
Em suma, o relato do turista britânico nos convida a pensar sobre que tipo de Brasil queremos mostrar ao mundo e que tipo de Brasil queremos ser.
Assim, um país que apaga suas raízes para parecer “internacional” perde justamente o que tem de mais valioso: sua diversidade, sua alegria, sua mistura.
Portanto, nenhum lugar no Brasil deveria tratar ninguém como “exótico” por causa da cor da pele. Num país onde mais da metade da população é negra, esse tipo de situação deveria ser impensável.
Fonte: Portal NE9



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