Muitos queriam amar a 3ª temporada de O Agente Noturno. Em particular, como fã de séries de espionagem, comecei a maratona pronto para defender cada escolha criativa. Mas, conforme os episódios avançavam, comecei a sentir aquela estranha sensação de que algo estava sendo disfarçado.
O Agente Noturno, uma das produções mais comentadas da Netflix nos últimos anos, prende pela simplicidade direta e pelo coração inesperado, mas agora parece tentar esconder falhas com fumaça narrativa.
Decisões que não combinam com o protagonista
Peter sempre foi construído como alguém intuitivo, estratégico, quase obsessivo com segurança. Só que, dessa vez, houve decisões precipitadas demais. No episódio final da temporada, tem um momento que me deixou coçando a cabeça de irritação.
Peter tenta pedir ajuda à equipe Night Action, discando seu código especial, e o sistema simplesmente revoga seu acesso, dizendo que o código não funciona mais. Isso pode até ser um artifício dramático, mas aqui vai minha opinião: um personagem que sempre foi metódico, preparado e apoiado em uma estrutura maior da agência, de repente é deixado à própria sorte por uma falha que a série não construiu como ameaça real ao longo dos episódios.
Não ficou claro se foi incompetência da agência, sabotagem política ou um erro de roteiro lavado na pressa de criar tensão.


A ausência de Rose
Aqui vai um ponto gigantesco da temporada: Rose não aparece. A atriz Luciane Buchanan, que interpretou Rose, confirmou que a personagem não volta na 3ª temporada porque os roteiristas sentiram que não havia como incluí-la de forma que fizesse sentido narrativamente.
E isso tem impacto direto nas decisões de Peter. Na temporada 1 e 2, muita coisa que ele fez tinha um núcleo emocional, proteger pessoas que ele ama. Agora a motivação dele parece ter sido substituída pela adrenalina da próxima bomba política. Sem Rose, faltou o motivo para justificar muitas escolhas arriscadas.


Confronto com o presidente
O final da temporada joga Peter contra nada menos que o presidente dos EUA, Richard Hagan, e sua primeira-dama Jenny, envolvidos num esquema de lavagem de dinheiro, manipulação eleitoral e tentativas de matar informantes.
Tem uma cena específica em que Chelsea, que está com documentos importantes, percebe que está sendo caçada, e é perseguida por agentes do presidente.
Isso é tensão de verdade, mas o motivo por trás dessa caçada (que envolve política e traição) não é explicado com a profundidade que merecia. Você vê as consequências, mas não sente tanto o processo.


A jornalista Isabel: grande promessa, pouco aproveitamento
A entrada da jornalista Isabel De Leon como parceira de Peter é um dos raros pontos que poderiam humanizar a temporada. Ela desenterra arquivos, coloca sua própria vida em risco e chega até a quase expor o presidente ao público.
Mas até aí o problema se repete: ela tem momentos de protagonismo, tem coragem e até ajuda a mover a história adiante, mas a série pouquíssimo aprofunda por que ela está ali, quais são seus medos, suas dúvidas, suas motivações pessoais, além da necessidade de fazer a história estourar na mídia.
Isso torna as escolhas dela meio mecânicas. Como se fossem coordenadas diretamente pelo roteiro para criar choque.


Exposição final do esquema político: grandiosa, mas rasa
Quando Peter e sua equipe conseguem finalmente levar provas à imprensa e expor o esquema de corrupção envolvendo Walcott Capital e a primeira-família, é um momento que poderia ser o clímax moral da temporada.
Só que, e aqui está o meu ponto, a série entrega isso de forma tão corrida, tão apressada, que você termina pensando: “ok, foi grande… mas por quê?”. A ideia de expor corrupção na TV é poderosa.
Mas às vezes parece usada como artifício para resolução rápida, mais do que como um arco narrativo desenvolvido à altura do que a própria série havia prometido.
O Agente Noturno está disponíel na Netflix.
Fonte: CINEPOP



