Anêmona é um drama que busca explorar as fissuras entre pais, filhos e irmãos, mas acaba soterrado por uma narrativa excessivamente abstrata. Dirigido por Ronan Day-Lewis, que também assina o roteiro ao lado do pai Daniel Day-Lewis, o filme acompanha Ray Stoker, vivido por Daniel, um homem que abandonou a família e vive isolado nas florestas da Irlanda até ser chamado de volta pelo irmão Jem, interpretado por Sean Bean.
O retorno de Ray acontece em meio aos conflitos envolvendo Brian, seu filho, que nunca o conheceu, mas carrega o peso de uma herança violenta associada ao passado do pai. A proposta do longa é investigar traumas e silêncios familiares, mas a execução privilegia atmosfera em detrimento de desenvolvimento dramático.
Beleza visual não compensa falta de tensão
A fotografia de Ben Fordesman é o grande trunfo do filme. Planos longos da floresta irlandesa e closes intensos nos rostos dos atores criam um ambiente melancólico e contemplativo. O problema é que a narrativa não sustenta a mesma força. O roteiro prefere sugerir conflitos em vez de dramatizá-los, tornando a experiência fria e distante.
A trama avança lentamente até o momento final, quando a confissão que estrutura a história é revelada apenas nos últimos minutos. A escolha de postergar informações centrais compromete a construção de tensão e esvazia o impacto emocional do desfecho.
Os diálogos, muitas vezes carregados de subtexto, carecem de concretude. Em vez de aprofundar as relações entre Ray e Jem ou entre Ray e Brian, o filme oscila entre linhas narrativas que não convergem plenamente. O encontro entre pai e filho, esperado como ponto de virada, acontece de forma tardia e quase protocolar.
Ainda assim, o elenco entrega performances sólidas. Daniel Day-Lewis constrói um personagem introspectivo e marcado pelo peso do passado, enquanto Sean Bean transmite a frustração de quem permaneceu para lidar com as consequências da ausência do irmão. Samantha Morton também acrescenta densidade à dinâmica familiar.
Anêmona demonstra ambição temática ao abordar culpa, legado e masculinidade, mas evita aprofundar essas questões. A sensação é de que há material potente sob a superfície, porém subexplorado.
Com quase duas horas de duração, o filme termina sem oferecer o clímax emocional prometido. A estreia de Ronan Day-Lewis revela domínio estético e sensibilidade, mas falha em transformar potencial em impacto narrativo. O resultado é um drama visualmente belo, porém excessivamente morno.
Anêmona está em cartaz nos cinemas.
Fonte: CINEPOP




