Essa não é a história que você esperava sair das páginas do clássico de Emily Brontë. Construída entre muitas aspas dentro do escopo de sua fonte original, “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emerald Fennell é a subversão do gênero de época, uma releitura livre em estética e adaptação literária que traduz para 2026 os anseios que percorrem as veredas do Booktok, dentro do TikTok.
E pode ser realmente difícil aceitar esse desmembramento de um clássico da literatura estrangeira nos cinemas. Sendo até mesmo considerada uma espécie de “desfiguração” do aspecto sombrio da tóxica relação entre Heathcliff e Cathy, é notável que há um conflito entre o que as palavras de Brontë nos dizem e a ideia que Fennell desconstruiu para entregar uma reinventada história de amor.
Mas permita-me fechar o livro por um instante. E diante desse silêncio de páginas que não se movem, permita-se ouvir o som que habita entre as aspas do título do filme. Permita que elas se concretizem em uma história de amor às avessas, exaustiva à sua maneira, mas completamente envolvente em suas repressões, desafetos, desarranjos e desencontros. É nesse hiato que corresponde ao nome do longa que nasce essa experiência cinematográfica chamada “O Morro dos Ventos Uivantes”. Não a adaptação dos anos 30, nem a dos anos 90, mas a que Margot Robbie e sua produtora LuckyChap nos convidam a contemplar.

Sob um design de produção manchado por um vermelho sangue que cobre dos pisos de um salão nobre às paredes que levam a uma assustadora escada, cada fragmento desenhado na releitura de Fennell eleva as características góticas do livro a um outro patamar. Ali, cada elemento precisa parecer palpável para que possamos dimensionar a aspereza deste pequeno universo que habita nos montes. Dos candelabros em formato de mão que atravessam as paredes à arquitetura robusta e irregular da casa original de Cathy, cada detalhe do romance foi pensado para ser uma escultura viva que vigia e guarda todos aqueles que estão sob seu jugo. Seja o jugo da miséria de uma casa abandonada ou da luxúria de uma mansão bem adornada.
E enquanto esses elementos falam conosco e contam parte da história, Margot Robbie e Jacob Elordi transfiguram o romance disfuncional de Heathcliff e Cathy para uma espécie de “amor condenado à morte”, onde o desejo ardente e a paixão não consumada ocupam todo o espaço da trama, deixando poucas brechas para os complexos dilemas do material fonte. E dentro disso, ainda que o filme definitivamente não seja fiel ao clássico original, ele o honra, extraindo sua essência amorosa para fora das páginas, a fim de consumá-la como um devaneio idílico que quase flerta com o formato “romantasy”, mas que jamais cruza essa linha (e ainda bem!).

Mantendo a elegância em abordar o controverso romance entre Heathcliff e Cathy, de forma em que a ardente sensualidade das cenas íntimas não ofusque o peso de seu plot twist, “O Morro dos Ventos Uivantes” é um espetáculo visual em definitivo. Com figurinos impecáveis assinados por Jacqueline Durran, o longa mescla a moda Vitoriana com o glamour da Hollywood antiga, com a combinação entre as tendências dos anos 50 e toques de contemporaneidade. Essa mistura também se reflete diretamente do roteiro de Fennell, que costura uma trama antiga com linhas modernas, gerando estranheza em alguns, mas um profundo encantamento para os que vão além da superfície dessa história.
Um Romeu e Julieta mais POP que busca transcender o tempo e as circunstâncias – à medida que se conecta a um novo público -, o drama é apaixonante, visceral e sufocante da melhor maneira possível. Extasiante em seu desfecho trágico, que ganha uma intensidade distinta ao som das melancólicas batidas de Charli XCX, “O Morro dos Ventos Uivantes” ainda condena sua audiência ao mesmo peso que a ausência de Cathy gera em Heathcliff. Nos deixando à deriva em um vazio existencial onde a morte assombra toda a história de amor que testemunhamos, o longa de Emerald Fennell é uma linda e imperfeita releitura, que se encaixa perfeitamente na geração do Booktok.
Fonte: CINEPOP




