Se o metal progressivo brasileiro fosse um mapa de terrenos acidentados, a Papangu seria o fenômeno geológico que ninguém viu chegar, mas que agora é impossível ignorar. Surgida do solo fértil da Paraíba e forjada na intersecção improvável entre o peso do rock troncho, o regionalismo rústico e uma complexidade musical, a banda transformou o estranhamento em virtude, provando que o Nordeste profundo e as guitarras dissonantes falam a mesma língua.
Após o impacto sísmico de Holoceno e a consolidação de uma sonoridade que desafia qualquer rótulo de prateleira pós Lampião Rei, o grupo chega a 2026 como o segredo mais bem guardado do underground que finalmente rompeu a bolha. Eles não apenas tocam; eles evocam rituais sonoros onde o folclore e a psicodelia colidem, criando uma narrativa que é, ao mesmo tempo, ancestral e futurista.
O próximo capítulo dessa odisseia tem data e local marcados: o Lollapalooza Brasil 2026. Escalados para o domingo, 22 de março, a Papangu desembarca no Autódromo de Interlagos para injetar uma dose de densidade e inventividade em um dia dominado pela vanguarda de Tyler, the Creator, pela melancolia de Lorde e pela urgência do Turnstile. É o palco ideal para uma banda que, assim como seus companheiros de lineup, não tem medo de reconstruir as próprias regras.
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Conversamos com Marco Mayer e Rodolfo Salgueiro sobre a logística de levar um som tão denso e estratificado para o sol de Interlagos, a recepção internacional de sua “mistura brasileira” e como é representar o novo peso nacional em um dos maiores festivais do mundo. Confira abaixo!
TMDQA! Entrevista – Papangu
TMDQA!: Perfeito. Primeiramente, Marco e Rodolfo, muitíssimo obrigado por receberem a gente, é um grande prazer. Caras, o Marco comentou em uma outra entrevista sobre o peso de representar a Paraíba no exterior. No Lollapalooza Brasil, que é cercado de nomes globais, como vocês se sentem sendo a banda que prova que o experimentalismo nordestino não é um nicho isolado?
Rodolfo: Vou pegar o gancho dessa outra entrevista. Eu acho que, em termos de escala, visibilidade e importância para as bandas do Nordeste – e para os projetos de vanguarda, de progressivo e experimentalismo que nasceram aqui há décadas e que tentamos trazer de volta -, o Lolla é, sem dúvida, o maior palco que a Papangu já teve acesso e talvez o maior que terá por muito tempo. Para a gente, é um orgulho enorme poder levar um som que em nenhum momento fez concessões para um público que, de outra forma, talvez não nos conheceria.
É um público disposto a abrir a cabeça para ter ela “explodida” por um som que mistura o extremo nordestino com influências progressivas, de metal, de rock e da nossa música tradicional. Esperamos representar muito bem esse nicho!
TMDQA!: Espetacular. O show de vocês é descrito como um “atropelo”. Eu queria saber como é adaptar essa essência intimista do Lampião Rei e do Holoceno para a vastidão do Autódromo de Interlagos. Esse “rock troncho” de vocês vai ganhar novos ângulos ecoando em um espaço tão aberto?
Marco: Com certeza! [risos] O som da Papangu tem essa característica de se moldar à resposta da plateia; o público interfere conosco. A gente não trabalha com “satélites” [metrônomos/guias fixas] normalmente. Fazemos as coisas de acordo com o ambiente, com a acústica e com o perfil do pessoal que vai ao show.
Tocar em um espaço aberto e grande é uma surpresa para nós e para o público também. Nossas composições permitem que a gente brinque bastante no palco, então vai ter improviso e a chance de deixar o som tomar caminhos inesperados. A energia é super diferente de uma casa fechada para 500 pessoas; a imprevisibilidade toma conta e o resultado deve ser bem bacana.
TMDQA!: Vocês dividem o dia com headliners como Tyler, the Creator, Lorde e Turnstile. Onde o “cangaço psicodélico” da Papangu aperta a mão desses artistas? Existe algum ponto de encontro entre o trabalho de vocês e o dessas outras atrações?
Rodolfo: Sabe, a gente pega emprestado vários rótulos; de alguns nos orgulhamos, outros achamos engraçados. A gente veste a camiseta e devolve para o público. Já tocamos com bandas de hip-hop, grindcore, death metal, jazz e blues. Temos o hábito de integrar lineups diversos nos últimos anos, mas o Lolla aumenta o volume disso do 10 para o 11.
Agora, o público é potencialmente muito diferente do que estamos acostumados. Acho que conversamos com esses artistas porque hoje existe uma abertura maior para experimentações – é o “make prog cool again”. [risos] De repente, um público que nunca ouviu isso antes vai aprender a gostar do estilo.
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TMDQA!: Recapitulando a história de vocês, algo que definitivamente marcou a história do grupo foi quando a cena se uniu para os ajudar após um assalto no Rio de Janeiro durante um período de apresentações. Estar no palco do Lollapalooza hoje, pouco tempo depois dessa rede de apoio, parece uma resposta coletiva de que a música independente e o som independente nordestino é imparável?
Marco: Como diz a letra de uma de nossas músicas: “o Boitatá não vai parar”. [risos] A banda consegue superar os desafios – não só esse assalto -, mas a luta constante de estar na estrada. Somos uma banda que preza por correr o Brasil inteiro, não importa a região. Cada obstáculo que enfrentamos para nos inserir no mercado faz a banda ficar mais forte; a gente se renova. Estar no Lollapalooza é, de fato, a soma do resultado de todo o pessoal que apoiou nossa jornada como artistas independentes até aqui.
Rodolfo: Notamos essa colaboração não só do público, mas de casas de show, promoters, influenciadores e produtores. Foi um movimento que envolveu os “players” da indústria que vivem esse cotidiano trabalhoso de turnê. Isso trouxe uma visibilidade importante para mostrar como a cena underground de diferentes estados sabe o momento de chegar junto e manter a parada viva. Se não fosse por isso, realmente acabaria.
TMDQA!: Realmente, muito especial! Vocês mencionaram que trazem instrumentos atípicos e improviso. Como é “hackear” o sistema de um grande festival com esse espírito de Hermeto Pascoal?
Rodolfo: O Marco citou que às vezes não sabemos para onde a música nos leva, e realmente é sobre isso – por exemplo, temos o triângulo, que é nossa arma secreta. Sabe aquele meme do cara que anda com um molhinho de pimenta e taca na comida se ela estiver ruim? [risos] O triângulo é isso: a qualquer momento a gente puxa ele e sabe que vai dar um “molho”.
É uma brincadeira, mas com fundo de verdade. Estamos sempre munidos de algo que não se vê normalmente no rock de grandes festivais para salpicar elementos diferentes.
Marco: Tem também a questão descontraída dos animais de borracha, que segue a filosofia da Música Universal do Hermeto Pascoal – usar instrumentos não convencionais para alcançar timbres diferentes ou criar um plot twist. Isso gera uma quebra de expectativa. Se você chega no show e vê um triângulo num pedestal ou uma galinha de borracha numa mesinha, você fica pensando: “quando é que ele vai usar isso?” – e às vezes nem usamos, e isso também é uma quebra de expectativa!
É como em filme de terror, onde você vê uma figura fora de foco no fundo e fica esperando ela aparecer – o tropo da “Arma de Chekhov”.
TMDQA!: Sensacional, se você mostra uma arma no começo, ela tem que disparar! Mas, mudando de assunto, vocês mencionaram que o show no Lolla é um prenúncio do terceiro disco. O que essa nova fase herdou das últimas turnês, especialmente a europeia? O som está mais solar, mais denso ou mais “troncho”?
Marco: Eu diria que ele chega mais longe em todas as direções. Construímos a gravação do terceiro disco através da experiência das turnês, e o entrosamento da banda ficou mais forte no palco. Nos sentimos mais à vontade em estúdio para explorar vertentes que ainda não tínhamos visitado.
No Lollapalooza, já estaremos na época de estreia de um single novo, que marca uma fase da Papangu indo para um rumo completamente diferente, com sons bem distintos, mas infusionados pela nossa experiência ao vivo.
Rodolfo: Enquanto o Holoceno é muito pesado e denso, e o Lampião Rei vem com algo um pouco mais claro em sonoridade, ao vivo esses dois discos se encontram. Esse terceiro disco carrega o sabor do “ao vivo” porque foi feito logo após as turnês. Estamos animados!
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Papangu no Lollapalooza Brasil
Assim como Jonabug, FBC, Royel Otis e muitos outros nomes, a Papangu compõe o line do maior festival do país! O Lollapalooza Brasil toma conta do Autódromo de Interlagos nos dias 20 a 22 de março, e você pode garantir seus ingressos no site da Ticketmaster Brasil!
Somos parceiros editoriais oficiais do evento, e com uma cobertura ampla, seja aqui em nosso site ou nas redes sociais, vocês não perdem um segundo da experiência do #LollaBR.
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