Crítica: Justiça Artificial aposta em formato inovador, mas tropeça na própria lógica

Crítica: Justiça Artificial aposta em formato inovador, mas tropeça na própria lógica

Timur Bekmambetov é um dos principais nomes associados ao chamado “screenlife”, formato que constrói a narrativa a partir de telas de computadores, e outros dispositivos. Após dirigir Profile e produzir títulos como Unfriended, Searching e Missing, o cineasta volta ao subgênero com Artificial, thriller de científica ambientado em uma futurista dominada por um sistema judicial controlado por .

Na trama, crimes em níveis extremos levaram à criação do “Tribunal Mercy”, onde um algoritmo julga casos de pena de morte considerados quase certos. O detetive Chris Raven (Chris Pratt) acorda acusado de assassinar a própria esposa e passa a lutar contra o relógio para provar sua inocência, sendo interrogado pela juíza virtual Maddox (Rebecca Ferguson). Com memória fragmentada e histórico de alcoolismo, ele depende das provas digitais do tribunal e da ajuda de sua parceira Jaq (Kali Reis) para reconstruir os acontecimentos.

Quando a inovação visual encontra limites no

O encontra seu maior trunfo justamente no uso criativo do formato. Bekmambetov amplia o conceito de “screenlife” ao incorporar reconstruções digitais de cenas do crime, permitindo sequências de e maior dinamismo visual, algo raro no subgênero. O resultado evita a sensação de confinamento típica desse tipo de produção e dá ao um ritmo mais cinematográfico.

Chris Pratt entrega uma atuação competente, transmitindo fragilidade e desespero sem abandonar o arquétipo do herói funcional. Já Rebecca Ferguson se destaca ao conferir camadas sutis à juíza artificial, criando uma presença fria, mas curiosamente empática. Kali Reis, apesar de ter uma personagem pouco desenvolvida, sustenta bem as cenas de ação.

O principal problema está no roteiro. Embora o filme apresente uma premissa provocadora sobre justiça automatizada, vigilância e pena de morte, evita aprofundar as implicações éticas e sociais desse sistema. Questões como manipulação digital, deepfakes e distorção de percepção, centrais no debate contemporâneo sobre IA, surgem apenas de forma superficial. Algumas decisões narrativas também entram em contradição com a própria crítica implícita ao tribunal automatizado, o que compromete a coerência dramática.

Há ainda improbabilidades estatísticas e soluções convenientes que enfraquecem o impacto dos mistérios centrais. Certas reviravoltas acontecem rápido demais, e detalhes importantes passam despercebidos mesmo em tela grande. Fica a impressão de que o roteiro precisaria de mais uma revisão para alinhar suas ambições temáticas com a lógica interna da história.

Ainda assim, Justiça Artificial funciona como entretenimento. É um suspense ágil, com boas atuações e uma abordagem técnica que aponta novos caminhos para o cinema “screenlife”. Mesmo com falhas conceituais e narrativas, o filme se sustenta como uma experiência curiosa e relativamente ousada dentro de um subgênero que raramente consegue se reinventar.

Justiça Artificial está em cartaz nos cinemas.

Nota: 6,5 / 10

 

Fonte: CINEPOP

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