A conta do carbono em São Paulo não fecha com plantio compensatório

A conta do carbono em São Paulo não fecha com plantio compensatório

Os números das emissões urbanas mostram por que o plantio de árvores não substitui políticas de redução na , sobretudo no setor de transportes

Roman Lezhnin/ UnsplashUma árvore adulta sequestra em média 22 quilos de CO₂ por ano

O enredo é conhecido: gestores públicos plantam mudas, posam para fotos e anunciam uma resposta climática baseada no verde. Em São Paulo, esse discurso exige revisão. A divulgação de milhares de novas árvores desloca o debate central: não é possível neutralizar emissões urbanas apenas com plantio compensatório, como já indicam avaliações de políticas de offset florestal em áreas urbanas. O carbono não se resolve no canteiro, mas no sistema que o produz.

Essa lógica de priorizar gestos simbólicos, em detrimento de políticas integradas, ecoa um cenário em que a legislação ambiental avança em um sentido enquanto a norma e os dispositivos operacionais caminham em outro, deixando a arborização urbana e as ações climáticas sem base normativa estável.

Os números ajudam a desmontar a narrativa. A prefeitura anuncia a meta de 290 mil mudas. O dado parece expressivo até ser confrontado com o estoque existente: cerca de 650 mil árvores compõem hoje a arborização viária da cidade. da indica que mais de 600 mil árvores foram perdidas na região metropolitana entre 2005 e 2020, tendência observada
também em outras metrópoles sob pressão urbana. O avanço anunciado cobre apenas uma fração dessa perda acumulada.

O inventário oficial informa que São Paulo emite cerca de 16,6 milhões de toneladas de CO₂ por ano, o equivalente a 1,4 tonelada por habitante. Uma árvore adulta sequestra em média 22 quilos de CO₂ por ano. Neutralizar um único ano de emissões exigiria aproximadamente 754 milhões de árvores adultas, distribuídas em uma área próxima de três vezes o território do município. A meta anunciada cobre 0,04% dessa necessidade. O plantio, apresentado como solução climática, não corresponde à escala do problema.

A média global de emissões é de 4,6 toneladas de CO₂ por pessoa ao ano. Mesmo em contextos de menor emissão per capita, como São Paulo, o plantio não se sustenta como resposta climática. O orçamento de carbono definido pelo PNUMA indica que cada pessoa deveria emitir no máximo 2,1 toneladas por ano até 2050. A média paulistana está abaixo desse limite, mas isso não autoriza complacência: 75,9% das emissões da cidade vêm do setor de transportes, movido a combustíveis fósseis.

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É aqui que o discurso da compensação se torna problemático. Enquanto o poder público investe capital político no plantio, relevante para conforto térmico, drenagem e saúde urbana, evita enfrentar o setor que concentra as emissões. As mudas plantadas hoje levarão cerca de 20 anos para atingir capacidade plena de . As emissões atuais seguem sem resposta estrutural. A questão não é interromper o plantio de árvores. Elas cumprem funções urbanas. O problema é apresentá-las como solução climática. A redução efetiva de emissões exige mudança tecnológica, reorganização do espaço urbano e decisão , como apontam diretrizes internacionais de mitigação urbana.

Se São Paulo pretende tratar o carbono com seriedade, precisa deslocar o foco para a mobilidade: retirar progressivamente os a diesel da frota, desestimular o uso do carro particular e garantir sobre as emissões evitadas por coletivo e deslocamentos não motorizados. Árvores importam. Mas não neutralizam uma metrópole movida a diesel e gasolina. São Paulo não carece de mudas, carece de decisão política e ação. O carbono não negocia e a conta
segue aberta.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.



Fonte: Jovem Pan

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