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Tua avó está presa

Foto: Reprodução YouTube Metrópoles

Uma carta aberta a todas as netas que estão com as avós encarceradas em Brasília

Foto: Reprodução YouTube Metrópoles

Prezada Ana Cristina.

Vou iniciar essa carta dizendo o que deve ser dito. Tua avó Delfina Maria não está viajando para a Chapada Diamantina, como te informaram, até porque, se estivesse, já deveria ter voltado.

Tua avó está presa em Brasília no presídio feminino conhecido como Colmeia. Dona Delfina era ativista bolsonarista. Sinto te informar que agora ela é considerada terrorista, Ana Cristina.

É uma situação difícil para os parentes que estão longe, e mais ainda para ti, que mora aí em Estocolmo. Teus parentes tentaram esconder a verdade, mas essa é a hora de não esconder nada.

Tua avó estava acampada ao lado do QG do Exército em Brasília, como você devia saber. Foi presa no dia 9 de janeiro, um dia depois da invasão dos prédios dos três poderes.

Ela aparece em algumas fotos com uma bandeira nas costas. Dona Delfina não é vista depredando nada, mas apenas fazendo gestos, dentro do Supremo.

Tua avó era uma das líderes dos acampamentos e estava sempre com a Bíblia. E lá estava ela dentro do Supremo.

Ela não viajou para Chapada Diamantina. Foi presa perto do acampamento, enfiada num ônibus e levada para o presídio.

Eu te informo, para ver como poderemos ajudar, que as presas da Colmeia estão se queixando da falta de sabonete e outros produtos de higiene nas celas.

Me lembro da tua avó comentando sobre as meninas pobres que pediam absorvente higiênico, para que pudessem ir à escola. Ela dizia que as adolescentes deveriam trabalhar.

Me lembro de dona Delfina dizendo que Bolsonaro estava certo ao negar absorventes às meninas pobres. Que isso não era obrigação do governo.

As meninas sem absorvente só queriam estudar, Ana Cristina. E a tua avó ficou sem sabonete de marca porque estava ao lado dos que queriam destruir Brasília.

Também me lembro bem de dona Delfina falando da Lava-Jato e dizendo várias vezes, com aquele tom de professora, que ela sempre foi: quem está preso é porque algo fez.

O ministro Alexandre de Moraes está soltando mulheres de idade. Vi teus parentes perguntando se dona Delfina já não deveria ter sido libertada.

Não sabemos o que aconteceu, porque ela já é idosa. Talvez tenha ficado mais tempo presa porque, além de idosa, é perigosa.

E também ouvi dizer, pela tua tia que tem o mesmo nome da tua avó, que ela não aceita sair com tornozeleira.

Tua avó debochava dos empreiteiros com tornozeleira. Ela riu muito de gente do PT humilhada pela Lava-Jato. Ela deve ter gargalhado vendo a prisão de Lula ao vivo na Globo.

Vamos ver o que podemos fazer por dona Delfina para que a vida dela seja menos desconfortável do que foi a vida dos presos da Lava-Jato.

Vamos torcer para que não façam com ela o que Sergio Moro fez com os presos mantidos em prisão preventiva sem fim, para que delatassem amigos e colegas.

Mas não farão maldades com a tua avó. A vida é dura nas prisões, mas desta vez o tratamento não será o mesmo da Lava-Jato. Porque o ministro Alexandre de Moraes cuida de tudo, Ana Cristina.

Se fosse em outros tempos, como no tempo da ditadura, dona Delfina poderia ser torturada para dedurar parceiros da invasão.

Ela poderia sumir, e você pensaria para o resto da vida que ele teria desaparecido na Chapada Diamantina. Sabemos até hoje que eles sumiam com as pessoas. Muitos corpos nunca foram encontrados.

Naquela época, todos os que dona Delfina vinha defendendo não iriam negar apenas sabonete à tua vó. Iriam negar direito de defesa.

Acrescento, porque você precisa saber, que dona Delfina e todos os manés foram abandonados pelos grandões.

Os manezões, que financiavam o golpe e incitavam tua avó, saltaram fora, Ana Cristina. Eles tentam salvar a própria pele, se é que irão conseguir.

Tua avó foi enganada por essa gente e agora está presa. Por que ela se meteu nisso, Ana Cristina?

Uma professora de história, que se aposentou com todas as honras. Uma pessoa respeitada na comunidade e na família.

Como foi que dona Delfina virou pregadora de golpe ao lado de bandidos? Em que momento ela virou outra pessoa, se ela era apenas uma viúva conservadora?

Como é que uma professora de história imaginava que poderia ter contatos com extraterrestres golpistas? E apoiando uma família de milicianos.

Conta comigo, Ana Cristina. Me manda notícias. Pretendo ir a Brasília e posso tentar visitar dona Delfina, porque às vezes tenho pena dela.

Receba um forte abraço deste teu amigo

PS: Me informa, se souberes, qual é a marca do sabonete que a tua vó costuma usar.

(Esta carta é destinada a todas as Anas Cristinas netas das muitas Delfinas que caíram no golpe do golpe.)

Moisés Mendes é jornalista. Escreve quinzenalmente para o Extra Classe.

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