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Economia

Inteligência Artificial: direção sem a bússola

Planejar ir ao SXSW é também aceitar aquela máxima de que não há escolha sem uma renúncia. As atividades simultâneas e as filas quilométricas nos fazem deixar pra trás painéis de marcas, especialistas e assuntos que temos interesse no maior evento da indústria criativa e de inovação do . Para os novatos (ou para quem já foi, como eu) ataca a síndrome de FOMO, o tal medo de perder alguma coisa: será que escolhi assistir àqueles que apresentaram as tendências que vão, de fato, vingar?

Voltei a Austin neste 2023, sete anos depois da minha estreia presencial, em 2016. Lembro que fui extremamente ansioso, imaginando que ouviria coisas extraordinárias. Na época, a realidade virtual era a pauta da vez. Você andava pela cidade e tinha VR em todo lugar, em todos os painéis e exposições de empresas. Passaram-se anos e essa tecnologia não ganhou escala. Lembra do Google Glass? Não vemos ninguém andando com óculos de realidade virtual por aí (pelo menos não até hoje, se um dia der certo não venham me culpar, já se passaram 8 anos, eu tenho direito, vai…). Outro assunto da época era o IoT (a internet das coisas). Mais do que devices, teríamos chips pelo corpo todo (não estou dizendo que um dia, talvez, será realidade, mas, novamente, 8 anos depois…)

No ano passado, o hit era o metaverso, que também (ainda) não vingou do jeito que foi alardeado.

Quase no fim da maratona do SXSW neste ano, consigo dizer com tranquilidade que, independentemente das escolhas que fiz, o mote da vez não é uma projeção sobre o futuro, mas um questionamento sobre uma realidade do hoje: afinal, qual é o papel dos humanos no mundo que está sendo, cada vez mais rapidamente, ocupado por máquinas inteligentes?

De carros autônomos a soluções de educação, não houve tecnologia mais debatida no SXSW 2023 que a Inteligência Artificial (AI, na sigla, em inglês), surgida nos 1950 (veja que demora mesmo…) e que, agora, pela primeira vez, chega perto do nosso intelecto. O que pode parecer contrassenso, já que sequer trata-se de uma tendência nova, e a onipresença do tema nos painéis é um indício de que depois de anos projetando um futuro em que nós, humanos, desbravaríamos o ambiente digital com avatares, usando acessórios tecnológicos, estamos agora lidando com um presente bem menos confortável e para o qual não nos preparamos tanto assim. A Inteligência Artificial já é capaz de substituir a inteligência humana em diversas situações aqui mesmo, na vida real. E agora?

Na publicidade, comecei minha carreira como redator. Confesso que ainda fico assustado em ver de perto o que as máquinas já sabem fazer. Mas, participando dos painéis, também foi fácil constatar que, antes de ser uma ameaça, a Inteligência Artificial é uma aliada na busca por eficiência. Pode perguntar ao ChatGPT, a ferramenta de IA generativa que foi citada em quase todos os painéis do SXSW, que ela também te tranquiliza: a IA pode até fazer o que você faz, mas com limitações e sob a mediação de outras pessoas. Além do mais, existem habilidades que apenas os seres humanos têm. Ou seja, se você está preocupado em perder seu trabalho, talvez você esteja deixando de olhar para o que realmente importa.

Desde Amy Webb, a especialista em futuro, que lançou a edição 2023 do seu Tech Trends Report no evento, a Greg Brockman, presidente da OpenAI, empresa que criou o ChatGPT e também o DALL-E, a ferramenta que cria imagens originais a partir de comandos, o debate passou a ser sobre os ganhos de produtividade que a Inteligência Artificial pode trazer – e já traz – para diversos negócios. Fizeram falas baseadas em cases reais, a partir de aplicações práticas e bem-sucedidas da tecnologia em vários segmentos. No entanto, a mensagem residual dos painéis é que, no fim do dia, elas ainda não substituem o que mais importa: a capacidade humana de gerar conexões emocionais reais.

Em seu painel no SXSW, a Disney apresentou seu novo robô com orelhas fofas, aprendendo a patinar e respondendo aos estímulos da audiência presente. Foi um sucesso. Na nossa rotina, a gente se diverte com as interações com a Alexa, conta piada pro ChatGPT. Mas, quando o assunto é conexão genuína, esquece. Não tem para nenhum deles.

E isso não sou eu quem está falando. No MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachussetts, há pesquisas sobre como o avanço das ferramentas de Inteligência Artificial pode nos levar a acreditar que as máquinas são capazes de sentir emoções, reagindo a partir delas. A neurociência, no entanto, nos mostra que tudo não passa de uma projeção que o humano faz sobre essas ferramentas, como explica a professora Sherry Turkle. Um papo complexo, mas que reforça o que escutei no SXSW sobre as implicações do IA.

Eu sou um entusiasta da tecnologia (um aprendiz, mas entusiasta) e de como ela impacta as relações sociais. Leio, estudo, vou atrás de informações. Mas, com todo o respeito a quem já se sentiu seguro em especular futuros no SXSW, me parece que a regra é tentar nos mostrar alguma direção em relação a esse tema, mesmo sem terem a bússola – não me arrisco a fazer nenhuma aposta.

Prefiro seguir com uma reflexão sobre o imprevisível: o que resta a nós, humanos, é sermos cada vez mais humanos (mas mantenha a tecnologia por perto, mesmo assim).

  • Hugo Rodrigues é chairman da WMcCann

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