Haddad tenta manter agenda com políticos enquanto calibra relação com mercado

Em quase cinco meses no cargo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem tentado equilibrar o discurso político enquanto calibra a relação com o mercado financeiro, que cobra responsabilidade fiscal da atual gestão.

Na tentativa de atender aos anseios do mercado, a principal ponte no governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com agentes econômicos abriu as portas do ministério para banqueiros e empresários e tem tentado estabelecer contato com autoridades que possuem distância ideológica do PT.

No início de maio, para garantir R$ 90 bilhões com arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), ele foi pessoalmente ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), para tentar reverter uma decisão desfavorável ao governo federal dada pelo magistrado. Indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Mendonça mudou de posição dias após a reunião com Haddad.

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Candidato natural à sucessão de Lula — seja em 2026 ou em 2030 —, o ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação tem recebido em sua sala deputados e senadores de diferentes partidos e tentado atender associações, federações e confederações diversas.

Foi nesse contexto que ele recebeu, em março, o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), aliado de Bolsonaro. Após o encontro, o governador anunciou que o ministro aceitou rever o plano de recuperação fiscal do estado.

No escritório da Fazenda em São Paulo, na Avenida Paulista, de onde costuma despachar nas sextas-feiras, ele já recebeu o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Josué Gomes da Silva, e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no mesmo dia, 20 de abril.

Agenda

Disputada, a agenda de Haddad inclui reuniões quase semanais com sua equipe de secretários, participações em fóruns e eventos privados, entrevistas e uma série de encontros com agentes públicos, com e sem mandato, e representantes do setor privado.

Em meio às discussões sobre o novo marco fiscal e a reforma tributária, foram ao menos duas dezenas de reuniões com deputados federais e senadores, de diferentes siglas.

O levantamento feito pelo Metrópoles tomou como base na agenda oficial do ministro, divulgada na plataforma e-Agendas.

Haddad também esteve reunido com 13 dos 37 colegas da Esplanada em mais de 30 vezes. O mais frequente deles foi Rui Costa (Casa Civil), com quem teve alguns desentendimentos, seguido pela parceira da área econômica Simone Tebet (Planejamento).

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Filiado ao PT, Haddad ainda teve 17 encontros com entidades de classe (desde a grande Confederação Nacional da Indústria — CNI até associações pequenas) e quatro com representantes sindicais.

Veja:

 

 

 

Além de reuniões nas residências oficiais dos presidentes da Câmara e do Senado, Haddad também já compareceu a duas sessões: em 23 de abril, no plenário do Senado, para debater a taxa de juros e o ajuste fiscal ao lado do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, e em 17 de maio, em audiência conjunta de três comissões da Câmara, para tratar da política econômica.

Player internacional

Nesse período, Haddad também se colocou como player internacional, se encontrando com ministros e secretários de finanças ou economia de quatro países (Colômbia, Argentina, Índia e Japão), além de dois embaixadores (Índia e Japão).

Também se reuniu, em oito oportunidades, com representantes de organismos internacionais (entre Fundo Monetário Internacional — FMI, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico — OCDE e Banco Interamericano de Desenvolvimento — BID).

O titular da Fazenda ainda acompanhou Lula em reuniões com os chefes de Estado da Argentina, Alberto Fernández, e do Uruguai, Luis Lacalle Pou.

Ele realizou um total de sete viagens ao exterior, sendo quatro delas para acompanhar a agenda do presidente Lula. O único mês em que não fez deslocamentos internacionais foi março.

  1. Suíça, para participar do Fórum de Davos (16 a 18 de janeiro)
  2. Argentina, acompanhando o presidente da República na Cúpula da Celac (24 de janeiro)
  3. Uruguai, acompanhando o presidente da República (25 de janeiro)
  4. Estados Unidos, acompanhando o presidente da República (9 e 10 de fevereiro)
  5. Índia, para participar do G20 Financeiro (22 a 24 de fevereiro)
  6. , acompanhando o presidente da República (11 a 14 de abril)
  7. Japão, para participar do G7 Financeiro (9 a 12 de maio)
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Posicionamento internacional

Nesse movimento, Haddad tenta se consolidar como um dos ministros da área econômica mais ativos dos países emergentes, se apresentando às contrapartes e tornando conhecida a agenda econômica do governo Lula, vista com desconfiança por alguns setores econômicos.

Auxiliares do ministro consideram que ele tem se movimentado para criar laços com os principais atores internacionais. Ele foi, por exemplo, o primeiro primeiro ministro da Fazenda brasileiro a participar do G7 Financeiro e tem sido destacado por Lula em importantes negociações relativas à agenda internacional, como a defesa da Argentina em fóruns.

O petista, inclusive, indicou que seu auxiliar deverá voltar à China para negociar a ajuda ao país vizinho. A ideia é que ele leve a questão argentina para discussão em uma reunião do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o Banco do Brics (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), com sede em Xangai e atualmente presidido pela ex-presidente petista Dilma Rousseff.

Com o movimento, Lula tem a intenção de prestar apoio ao governo argentino e reforçar a posição brasileira como líder regional. Às vésperas de uma eleição presidencial, a Argentina enfrenta uma grave crise econômica, com escalada de juros e da inflação.

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