Eu e a AI

Eu e a AI

Arte: Rafael Sica

Arte: Rafael Sica

Até agora só uma vez puxei papo com o Chatgpt. Por quê? Dei um tempo de falar com objetos. Meus botões dizem que não me expresso mais como antigamente. Verdade. Talvez por isso que se fecham em suas casas. Ainda bem que troquei muitos deles por zíper e velcro, que têm assuntos melhores.

Já falei muito com pias. Sentia dó delas, atopetadas de louça, mal podiam respirar debaixo da pilha. Ah, tardes inteiras numa trela que escorria pelo ralo. Falávamos de tudo que dizia respeito à lavagem. Coisa teórica, claro, pois eu conversava de mãos nos bolsos. Depois me aborreci e não dei mais ouvidos ao bojo de aço inox.

Como a cozinha era perto da área de serviço, inventei de trocar umas  palavras com a dupla vassoura e rodo. No início achei interessantes: eles tinham uma visão maior do , a casa inteira. Eram capazes de discutir a poeira das estrelas a partir do pó acumulado durante semanas ou meses. Até que certo dia o espanador se intrometeu e disse que sentia pena de mim. Depenei-o e saí da área.

Daí experimentei papear com seres mais evoluídos, nascidos pra conversação. Me refiro às poltronas e sofás, sempre dispostos a ficar por baixo num bate-papo. Eu os encantava desfiando histórias de estofamentos elegantes, bem revestidos. Mas o que essa turma gostava mesmo era quando eu relatava coisas picantes sobre a intimidade das almofadas. Acho que a maciez delas os excitava.

Na sala, o abajur piscava pra mim. Tentei entabular algo, mas percebi que as piscadas eram apenas oscilação da eletricidade. Deixei-o no canto dele, não ia ficar falando sozinho, eu hein. Os tapetes também queriam dialogar, com as suas lembranças de passos e pisadas, solas e saltos, sem falar de como o aspirador vivia tentando sexo oral com eles. Engraçados, mas não tinham a fibra do capacho, esse sim sempre coloquial nos breves momentos comigo diante da porta.

Meu grande interlocutor por anos a fio, porém, foi um travesseiro. Ah, velho confidente de insônias. Esse me compreendia, inclusive com conselhos pro dia seguinte. Apesar de ser um dos objetos mais descansados, era sagaz, aquele fofo. Ainda ouço sua voz abafada sob a minha cabeça.

Agora, após décadas de convívio com bons prosadores domésticos (sei que a maioria prefere falar com poste, outros com cachorro e gato ou plantas), surge essa tal inteligência artificial. Eu é que não vou me entregar a esse novo vício, esquisitíssimo, aliás. Conversar com uma máquina? Jamais. Podem pensar que sou doido.

FRAGA é colunista mensal do Jornal Extra Classe

 

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