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Cotidiano & Variedades

Compra por Musk encerra purgatório do Twitter. Agora será o céu ou inferno?

Durantes seis meses, as idas e vindas da aquisição do Twitter pelo bilionário Elon Musk afetaram o valor das ações da empresa e o engajamento tanto do público quanto dos funcionários. A conclusão do negócio, nesta quinta-feira (27), representa o fim desse “purgatório” onde o destino da rede social parecia incerto.

A questão agora é o que vem depois do purgatório: o céu, como Musk promete, ou o inferno, como alguns especialistas (e tuiteiros) preveem?

A chave podem ser três problemas já identificados pelo mercado que assolam o Twitter nos últimos anos, especialmente agravados pela pandemia. Tudo depende de como Musk tentará corrigi-los – e se terá sucesso nessa empreitada.

1) O público está indo embora

A Reuters teve acesso a um relatório interno da companhia que atesta uma queda constante e significativa de seus usuários mais ativos desde o início da pandemia de covid-19, em 2020.

A empresa considera “heavy user” (usuário frequente, em tradução livre) quem entra na conta pelo menos seis vezes por semana e faz pelo menos três postagens nesse mesmo período.

Segundo o documento, eles representam menos de 10% do total de contas, mas geram 90% do conteúdo e 50% do faturamento global.

A notícia gerou vários comentários no próprio Twitter, inclusive entre jornalistas que são “heavy users”. Entre as hipóteses levantadas está o fato de que o algoritmo passou a “punir” postagens com links, estimulando todos a criar longos “fios” (tuites sucessivos sobre um mesmo tema) que são mais difíceis de ler e não têm a mesma performance.

“[Twitter] deprecia tuítes com links. Eu costumava vir aqui para achar coisas para ler, e agora só tem fios de 457 tuítes que funcionam como cavalos de Tróia, e o link para o artigo está no último post”, lamenta a jornalista Casey Johnston.

Outra percepção é de que, após a pandemia e os atritos políticos nos EUA (onde o Twitter tem seu maior faturamento) nos últimos dois anos, grandes usuários se tornaram alvos de comentários ofensivos e até criminosos, sem a devida monitoração da plataforma.

“Sou uma heavy user”, comenta a também jornalista Kate Smith. “A plataforma ficou comprovadamente pior desde a pandemia. Eu recebo regularmente comentários vis, pessoais, nojentos, e aparentemente nenhum viola os termos de uso. Várias mulheres que conheço que usam esta plataforma também passam pelo mesmo.”

Vale lembrar que uma das “promessas” de Elon Musk é exatamente a de diminuir a moderação, permitindo mais “liberdade de expressão” – segundo a definição que Musk dá a esse conceito.

2) As novas tendências são ruins para anunciantes

O mesmo documento acessado pela Reuters aponta queda no interesse em vários assuntos que antes movimentavam a plataforma e atraíam heavy users. Entre eles, moda, celebridades e eSports. Boa parte deste público estaria migrando para o Instagram e o TikTok.

“As grandes comunidades estão em declínio”, conclui o relatório.

Mas, se há tantos tuítes sobre esquerda e direita gerando brigas e ofensas, certamente o Twitter ainda é um polo para debates políticos, correto? O próprio Musk sempre defendeu o valor da plataforma como uma “praça mundial” onde discussões importantes acontecem.

Novamente, a realidade dos números é outra. Os dados indicam que eventos como a invasão do Capitólio dos EUA no início de 2021 deram picos de audiência, mas esse público não se manteve nos meses seguintes.

Para piorar a situação, o vácuo deixado por esses temas está sendo ocupado por outras duas tendências problemáticas para os anunciantes: criptomoedas e #nsfw (hashtag da abreviatura “não é seguro para o ambiente de trabalho”, que reúne conteúdos geralmente associados a nudez e sexo).

“Parece que há uma discrepância significativa entre o que acredito que sejam os valores da nossa companhia e os nossos padrões de crescimento”, afirma um dos analistas no relatório.

3) Os funcionários estão sendo ignorados e pedindo demissão

Musk já começou uma feroz reestruturação interna, que prevê redução na equipe global – atualmente, cerca de 7.500 funcionários. No alto escalão, já foram dispensados o presidente-executivo Parag Agrawal, o diretor financeiro Ned Segal e a chefe de assuntos jurídicos e políticas internas, Vijaya Gadde – considerada a “cabeça” da moderação dos conteúdos na plataforma.

Mas, mesmo antes de sua chegada, a empresa já estava sofrendo com saídas constantes. Os próprios funcionários estavam se demitindo, em parte por causa da instabilidade e falta de direção da empresa nos últimos anos.

O site Platformer teve acesso às pesquisas internas de satisfação. Os resultados não são bons e devem piorar ainda mais após a reestruturação prevista pelo novo dono.

Na última, de abril, o índice de “engajamento” dos funcionários havia caído para 69 pontos. Em 2021, era 82. Outras 38 métricas avaliadas também caíram nesse mesmo período – entre elas, “comunicação interna”, “orgulho da companhia” e “probabilidade de recomendar o Twitter [como ambiente de trabalho]” .

Duas ainda mais preocupantes: a “confiança na empresa” perdeu 24 pontos e a “intenção de ficar [na empresa]” caiu 12 pontos. Uma análise anterior, de outubro de 2021, muito antes de Musk anunciar sua intenção de compra, já revelava que pelo menos 13% dos funcionários planejavam sair nos próximos dois anos.

A chegada de Musk, por si só, pode jogar gasolina nesse fogo. Sua figura ainda é considerada, no mínimo, polêmica pelos funcionários.

Antes da conclusão da venda, um dos funcionários relatou à Platformer: “A escolha neste momento é, ou a negociação não é concluída, nossas ações caem ainda mais e eu passo a receber 50% do que ganhava no ano passado; ou a negociação dá certo e eu passo a trabalhar para um tipo estranho de sociopata.”

Musk tem um longo histórico de rusgas com funcionários na sua outra empresa, a Tesla: desde cortes ostensivos até cobranças por trabalho presencial acusações de racismo.

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