Com atraso,mas a tempo, a polícia bate à porta dos militares golpistas

Sabe Deus, ou melhor, o ministro Alexandre de Moraes, quanto tempo falta para decretar a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas que ela ficou mais próxima, ficou com a nova operação da Polícia Federal – desta vez contra o primeiro escalão do golpe que, por muito pouco, não aconteceu no final de dezembro de 2022.

Experiente golpista, bem que avisou o general de triste figura Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional do governo passado, e ex-chefe de gabinete do ministro do Exército, general Sylvio Frota, que em 1977 tentou, sem sucesso, derrubar o general Ernesto Geisel, então presidente da República.

Em reunião com Bolsonaro e outros generais golpistas em 5 de julho de 2022, Heleno advertiu-os:

“Não vai ter revisão do VAR. Então, o que tiver que ser feito tem que ser feito antes das eleições. Se tiver que dar soco na mesa é antes das eleições. Se tiver que virar a mesa é antes das eleições.  E vai chegar a um ponto que nós não vamos poder mais falar. Nós vamos ter que agir. Agir contra determinadas instituições e contra determinadas pessoas. Isso pra mim é muito claro”.

Era também muito claro para o velho general que a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) deveria infiltrar espiões nas campanhas dos candidatos que disputariam a eleição presidencial com Bolsonaro. Mas nessa hora, Bolsonaro interrompeu-o. Disse que mais tarde os dois conversariam a respeito. Não queria expor a ABIN.

Finalmente, a Polícia Federal bateu à porta de oficiais de alta patente. Cinco generais e um almirante tiveram suas casas vasculhadas. Três deles foram ministros do governo, e três comandaram tropas. O mais destacado, o general Walter Braga Neto, foi ministro da Defesa, chefe da Casa Civil e candidato a vice de Bolsonaro.

Estreitamente ligado ao general Eduardo Villas Boas, ex-comandante do Exército e autor do famoso twitter que levou o Supremo Tribunal Federal a negar um habeas-corpus a Lula quando ele estava preso, Braga Neto tramou contra colegas de farda que resistiram à tentação de aderir ao golpe. Porque, de fato, era uma tentação.

As Forças Armadas em 2018 apoiaram a eleição de Bolsonaro. Era  a oportunidade para voltarem ao poder sem disparar um só tiro. Apoiaram o governo dele e se beneficiaram disso – até Viagra e próteses penianas ganharam de presente em atendimento a “todos os princípios de eficiência da Administração Pública”.

Quatro anos depois, alinharam-se ao projeto de Bolsonaro de permanecer no poder por bem ou por mal. Por bem, reelegendo-se; por mal, dando um golpe. Foi aí que o bicho pegou e os militares se dividiram entre os que toparam rasgar a Constituição, os que não, e os que subiram no muro para ver no que tudo ia dar.

O comandante da Marinha disse a Bolsonaro que poderia contar com ele para virar a mesa. O comandante da Aeronáutica nada disse. O comandante do Exército, Freire Gomes, disse não, mas assinou uma nota passando a mão na cabeça dos bolsonaristas que acamparam à porta dos quartéis. Freire Gomes só ficou duas semanas no cargo.

Cedeu o lugar ao general Júlio Cesar de Arruda, que na noite do 8 de janeiro moveu blindados e tropas para impedir que a Polícia Militar do Distrito Federal prendesse os golpistas alojados no Setor Militar Urbano. Só no dia seguinte eles foram presos. Deu tempo para que membros da família militar fugissem durante a madrugada.

Rachados estavam os militares quanto ao golpe de dezembro e à tentativa de golpe em janeiro; rachados continuam. Em parte, porque desejavam a continuidade de Bolsonaro na presidência, em parte porque sempre quiseram ver Lula pelas costas e se possível preso. O racha foi vocalizado pelo general Hamilton Mourão.

Ex-vice de Bolsonaro, senador pelo Rio Grande do Sul, Mourão subiu, ontem, à tribuna do Senado e fez um discurso incendiário. Disse, a certa altura:

“Não vivemos na União Soviética, não vivemos na comunista, não vivemos em regimes totalitários, mas estamos caminhando para isso. No caso das Forças Armadas, os seus comandantes não podem se omitir perante a condução arbitrária de processos ilegais que atingem seus integrantes ao largo da Justiça Militar.”

Disse mais:

“Acredito que temos que estar articulados. E aqui conclamo a todos que, por meio de palestras, entrevistas, artigos, postagens na rede sociais, possamos mobilizar a sociedade e que cobremos, de forma pacífica e dentro da lei, esses arbítrios que o STF vem cometendo.”

E disse ainda:

“Na verdade, lamentavelmente a Suprema Corte se torna instrumento das oligarquias regionais que querem subjugar o país ao seu jogo de corrupção e no qual o Partido dos Trabalhadores, com todo o seu histrionismo, não passa de uma fachada para que os verdadeiros donos do poder façam o que querem e bem entendem.”

É forte a pressão de militares da ativa e da reserva para que o comandante do Exército, general Tomás Paiva, se pronuncie.

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