BBB, Forbes e afins: Estamos usando nosso engajamento negro e poderoso de forma correta?

A comunidade negra move a Internet, mas não colhemos a grana que ela movimenta e acho que temos um pouco de responsabilidade, não culpa, mas precisamos ficar atentos a um jogo de cartas marcadas, onde temos sido usados algumas vezes.

Eu não acho honesto apontar os dedos para as pessoas negras, que na maioria das vezes nem têm consciência do poder do seu like, do seu comentário ou engajamento. 

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Como Head de Conteúdo do Mundo Negro, em 2024, decidi que não iríamos cobrir o BBB de forma integral como antes. Foi uma escolha onde sabíamos que perderíamos uma oportunidade de ter mais engajamento. Falamos do programa pontualmente por temos um grande carinho pelos nossos leitores que gostam do reality.

No entanto, quando vemos o tipo de engajamento que o programa global gera, ele é adoecedor. Essa é uma das edições com mais gritarias e ofensas. Nossa comunidade negra é uma das que mais engaja ao mesmo tempo que a Rede Globo bate recordes de faturamento, passando a casa de 1 bilhão de reais. Desse faturamento e visibilidade, o que colhemos? Quem é a pessoa negra com a visibilidade de uma Juliette?

A revista Forbes, mais especificamente a lista dos 10 Top Creators da publicação além dos CMO's ( Diretores de Marketing) , gerou um desgosto na nossa comunidade pela falta de representatividade negra. Acho o questionamento de diversidade nesse tipo de reconhecimento bem válido, mas precisamos entender que as publicações sobre negócio do Brasil não fazem um trabalho que inclua personagens negros para seus conteúdos, que não seja falando sobre diversidade ou alguma história de superação.

No Mundo Negro, há 2 anos, criamos um site sobre Negócios e Carreira. O que era apenas uma editoria dentro do site ganhou um espaço dedicado, na forma de hotsite, depois que fomos contemplados em um programa de aceleração com foco em projetos jornalísticos oferecido pela Ambev. Só em conteúdos especiais já citamos quase uma centena de profissionais negros, homens e mulheres que se destacam na sua área de atuação em grandes empresas.

Voltando à Forbes, apesar do conteúdo com foco em e negócios, sua fama veio pelas tradicionais listas de ricos, milionários e bilionários, e a Forbes Brasil trouxe isso da matriz americana.

A leitura que temos que fazer desse tipo de publicação não deveria ser aquela onde há expectativas de se encontrar representatividade. Talvez um olhar de negócios, de saber o que as pessoas ricas estão fazendo para aumentar seu patrimônio, pode ser sim uma curiosidade também para pessoas negras e até mesmo um conteúdo inspiracional. Agora, esperar que a revista realmente faça um trabalho de apuração para além da própria bolha e  com foco nos anunciantes para encontrar pessoas não brancas bem-sucedidas, além dos mesmos rostinhos de sempre, pode ser frustrante.

Revistas elitizadas usam fontes negras quando convém. Em todos esses anos como jornalista conheço poucos casos de pessoas negras em destaque nessas publicações quando a pauta não é algo relacionado ao racismo ou D&I. 

Toda vez que comentamos ou damos likes em conteúdos que nos fazem mal ou não nos representam, estamos contribuindo para que essas plataformas cresçam em números e faturamento. Um ato conhecido popularmente como massa de manobra. Os veículos já sabem como mexer com a nossa emoção e chamar a nossa atenção muitas vezes com conteúdos que só geram discussões que nos dividem, mas para eles, o debate gera lucro pelos números gerados pelo engajamento. 

Além disso, vale uma reflexão de como engajamos o que é nosso e feito pelos nossos. Se o algoritmo não nos entrega conteúdos de pessoas negras, cabe a nós procurar, divulgar, compartilhar e encorajar negros que produzem conteúdos para a internet, seja jornalístico, seja artístico, esportivo e o que mais queremos usar a internet para expressar. E o tema nem precisa ser sobre negritude. Negros podem falar sobre qualquer coisa.

Somos a maior parte da população. Se veiculos e marcas não nos reconhecem, é hora de mostrar que nosso like e também nosso boicote têm valor. Imagine se a gente resolver só consumir de marcas que investem em diversidade e inclusão?

E para alguém que, apesar do sucesso, seja lá o que seja a definição disso na sua vida, nunca apareceu em uma dessas listas, não ache que a validação baseada em publicidade vai reconhecer o seu talento.

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