“A gente transforma vidas”, diz Bia Santos sobre projeto de educação financeira

Fundadora e CEO da Barkus, startup de inclusão e educação financeira, Bia Santos tem apenas 26 anos, mas já coleciona muitas conquistas na carreira, dentre elas ter seu nome da lista Forbes Under 30. Em 2022, ela ainda foi uma das 100 pessoas negras mais influentes da Lusofonia e vencedora brasileira na categoria Tech Entrepreneur do prêmio Women that Build Awards. Pela sua história de vida e profissional, a jovem, nascida no Cachambi, Zona Norte do Rio de Janeiro, é uma das homenageadas do Prêmio Mulheres Exponenciais 2023, idealizado pela Esfera Brasil e pela Conecta, na categoria Tecnologia.

É um baita reconhecimento, principalmente porque o prêmio vem de organizações que têm como principal objetivo conectar as grandes lideranças, de diferentes setores”, diz. “A gente precisa desse movimento conjunto para fazer acontecer, e me sinto muito feliz e honrada de estar com outras mulheres tão maravilhosas”, acrescenta.

Em 2016, a Barkus foi criada com uma metodologia própria, pensada para ensinar educação financeira à população brasileira, em especial para pessoas negras, mulheres, público LGBTQIA+ e para as classes C, D e E.

“São públicos que normalmente ficam à margem do sistema financeiro e que têm mais dificuldade de comunicação com grandes empresas e instituições no geral. A gente quer continuar a impactar mais e mais pessoas, sabendo que o nosso trabalho transforma a vida delas”, afirma Bia.

A solução encontrada pela empresa se chama Iara, um bot humanizado que ensina finanças pessoais por meio de trilhas de aprendizagem individuais e personalizadas, ministradas pelo WhatsApp.

“Parece que você está conversando com uma educadora financeira. Ela faz com que as pessoas se sintam mais à vontade para compartilhar e aprender. Contamos com vários tipos de conteúdo: texto, vídeo, áudio e infográficos. Assim a gente consegue abraçar um grupo da população que tem mais dificuldade para letramento financeiro e digital”, explica a executiva.

Com o nome na Forbes Under 30 na área de Ciência e Educação, Bia atribui o feito ao trabalho realizado nos últimos sete anos com a Barkus, mas lembra que a educação financeira é um tema que a acompanha desde o colégio.

“Fui uma adolescente que foi impactada por iniciativas durante o Ensino Médio, em uma escola pública do Rio de Janeiro, e isso fez completa diferença na minha vida, inclusive com professores que foram grandes mentores e me incentivaram sempre a ver novos horizontes e a evoluir”, conta.

A empresária tem um objetivo: levar, por meio da representatividade, mais jovens, mulheres e pessoas negras para os espaços de participação nos debates. Ela destaca a importância que foi, para ela, ter uma mulher negra como chefe no primeiro trabalho. Mas, para isso, é preciso haver oportunidades.

“É extremamente importante a gente ter mais pessoas negras e mais mulheres contando as suas histórias, de uma trajetória que, muitas vezes, é de luta e de conquistas, mesmo com tantos obstáculos”, justifica.

Segundo Bia, já existem programas de apoio a esse público, mas ainda em número insuficiente. A empresária acredita que é preciso entender melhor a realidade dos jovens e quais são as barreiras, para que “os programas consigam abraçar também essas peculiaridades e fazer com que esse jovem consiga acessar esses espaços”.

Empreendedora social

Graduada em Administração pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pela Universidade do Porto e pós-graduada em História e Africana e Afro-brasileira pelo Instituto Pretos Novos, com pesquisas sobre diversidade organizacional e finanças, Bia Santos trabalha em diferentes frentes além da Barkus.

Atua como conselheira da cidade do Rio de Janeiro na área de equidade e inclusão e é conselheira consultiva do BNDES Garagem, programa de aceleração de negócios sociais em parceria com Wayra Brasil, Liga Ventures e Artemisia, uma das principais organizações de negócios de impacto social no País. É ainda conselheira da UNISUAM na área de impacto social.

Na Barkus, a CEO trabalha com um modelo de financiamento cruzado, o que significa que uma parte dos lucros obtidos com a venda dos produtos de tecnologia é revertida para instituições, sem qualquer custo. Ela elenca dois importantes parceiros na iniciativa: “Codin é um projeto de uma das secretarias de Niterói, de apoio a mulheres que sofreram situações de violência. Então a gente fornece um módulo de educação financeira, de forma gratuita, a essas mulheres. Temos também um projeto de longa data com o IP Mangueira, que oferece cursos profissionalizantes, de rápida empregabilidade, para jovens da comunidade”, explica.

Preconceito e desigualdade

Ela foi uma das 100 personalidades negras da Lusofonia mais influentes de 2022. Ainda assim, revela que é desafiador ser mulher e pessoa negra na sociedade. Ela lembrou ter sido desacreditada, tida como estagiária – mesmo já à frente da Barkus –, e contou que, muitas vezes, o projeto por ela idealizado era apresentado a outras empresas pelo sócio, um homem branco.

“Sempre fui responsável pela comunicação e área comercial, então era muito a minha imagem e a minha voz que estavam à frente do negócio. É ruim relembrar, mas, ao mesmo tempo, é importante a gente mostrar na prática. Ele era a pessoa que apresentava o projeto, porque era nitidamente muito mais ouvido do que eu, mesmo que eu tivesse pensado as estratégias”, afirma.

O sócio, Marden Rodrigues, é seu apoiador. Com ele, fala sobre racismo e sexismo. Mas, juntos, os dois precisaram traçar estratégias para fazer com que o negócio recebesse os investimentos necessários e atingisse o patamar hoje alcançado.

Captação de recurso ainda é uma grande questão quando a gente olha para o mercado. É um desafio por fase, e a gente vai pensando em formas de contorná-lo para continuar crescendo”, diz.

desigualdade no País ainda é gritante, por isso sua principal bandeira é a igualdade de oportunidades. “Tem uma questão de justiça social que é muito nítida. As pessoas ainda não entenderam o quanto o tamanho da desigualdade social, racial e de gênero que a gente vive já afeta o nosso presente e vai afetar ainda mais nosso futuro”, acredita.

Segundo a empreendedora, ambientes diversos tendem a inovar mais. Daí a importância de as empresas apostarem na diversidade ao contratar funcionários, não só os que estão na base, mas também nos mais altos cargos executivos. Para Bia, foi assim que o negócio sobreviveu à pandemia de Covid-19 apesar das adversidades no caminho.

Futuro

Em 2022, a Barkus alcançou 100 mil pessoas. A meta é chegar a um milhão, o quanto antes, de acordo com Bia. Ela também se prepara para fazer um MBA e mestrado fora do País e quer concorrer a uma vaga nas universidades americanas. Foi nomeada para o International Visitor Leadership Program (IVLP), principal programa de intercâmbio profissional do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Viajante, entusiasta de diferentes culturas e com experiência internacional em 20 países, Bia traz na bagagem novas perspectivas de vida e de empreendedorismo a cada viagem.

Sempre que eu viajo, levo uma lente de empresária. A gente vê como eles solucionam problemas que, às vezes, a gente não consegue aqui no Brasil. Conversando com outros empreendedores, vejo que existem problemas muito parecidos, um modelo de negócio que a gente não pensou e novas tecnologias, então viajar também é uma forma de expandir horizontes”, defende.

Ao olhar para a carreira profissional que trilhou em tão pouco tempo, Bia se orgulha do caminho percorrido. “Às vezes, eu era a única que vinha de uma realidade muito diferente da galera que estava no mercado financeiro e de tecnologia, um mercado muito elitizado. Hoje, eu olho para trás e para o lugar que a gente está chegando e penso: ‘Caramba, eu consegui, mesmo com todas as barreiras'.”

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